Criança médium desvenda crime no Amazonas 15/02/1898

Jornal de Notícias – Bahia 15 de Fevereiro de 1898, p. 2

 

É CURIOSO!

Com esta epitáfe, refere o Commércio do Amazonas em sua edição de 29 de janeiro último, o seguinte fato, do qual já nos ocupamos:

“Com a epígrafe Caso interessante, publicou há dias o nosso colega Amazonas Commercial um fato realmente interessante, relativamente a uma menina de 12 anos de idade, de nome Margarida que, em companhia de sua mãe reside nesta capital.

Margarida, que há meses vive torturada por um caso curiosíssimo, e digno de ser observado pelos nossos médicos, desde que, tratando-se de um crime provável, muito poderá conseguir o hipnotismo, empregado atualmente na Europa para tais casos.

Eis o que conseguimos saber:

Há 3 meses apareceu na chefatura de seguranã uma mulher de nacionalidade portuguesa, dizendo chamar-se Maria, e queixou-se entre lágrimas ao sr. sub-prefeito de serviço, então o major José Barbosa, de que um índio havia assassinado seu cunhado Patella, afogando-o na ocasião em que se banhava na foz do Igarapé dos Educandos, acrescentando a queixosa que duas mulheres que se achavam lavando roupa naquelas proximidades podiam também informar sobre o que acabava de relatar.

Vindo as mulheres indicadas à presença da autoridade, declararam que não tinham testemunhado o fato aludido, mas que podiam asseverar terem visto o índio próximo de Patella na ocasião em que este tomava banho.

Diante de tais revelações pôs-se a polícia no encalço do índio, conseguindo prendê-lo.

Este, durante o tempo de sua detenção, negou sempre que tivesse assassinado a Patella, e, por fim, não tempo-se provado a criminalidade do índio, foi este posto em liberdade, desaparecendo em seguida sem que até hoje conheça-se o seu paradeiro.

Esforços foram feitos para a descoberta do cadáver, mas todos improfículos. E nunca mais soube-se do infeliz Patella.

Algum tempo era decorrido, quando uma tarde, estando Margarida a banhar-se nas proximidades onde diz sua mãe ter sido perpetrado o crime, duas imensas cobras desenrolaram-se ante ela, que impelida pelo pavor de vê-las, pôs-se a correr em caminho de sua casa.

Aí chegada narrou o ocorrido a sua mãe e a um conhecido que lá estava nesse momento, chamado Chico Folha.

Ao concluir a narração, este caiu com um forte ataque, sem que se soubesse explicar, até hoje, a razão de ser desse acometimento.

O que é feito desse amigo da casa também ignora-se.

Dias passados a estes fatos, foi Margarida acometida de um extranho acesso nervoso, que terminou por uma espécie de sonolência, revelando, durante este último estado, curiosíssimos pormenores sobre o misterioso desaparecimento de seu tio.

Nesse doloroso momento a desditosa criança, numa voz difícil, que não era a sua começou a falar sobre um assassinato, e pedindo cumprimento de promessas e missas, arrecadação de objetos e dinheiro em mãos de outros, supreendendo aos que a ouviam, pois que tudo a que se referia era ignorado.

Apesar de sua grande dor, a mãe de Margarida, empenhada na descoberta que, talvez de suas revelações, si podesse obter, interrogou-a:

  • Como se chamava?
  • José da Costa Patella.
  • Que queria?

Levantando o braço direito, Margarida simulou com um gesto trágico uma punhalada no mesmo lado sobre o peito, depois com ambos os braços indicou um empurrão, dando aos braços e pernas que entrelaçava ideia de uma cobra que se enroscava, terminando por dar a entender, movendo a boca como quem mastiga, que a cobra o devorara.

Perguntando sua desolada mãe o que significava tudo aquilo, respondeu clara e nitidamente que um índio, de nome Domingos, assassinara seu tio com uma faca, atirando-o depois ao rio, onde 2 cobras enroscaram-se-lhe pelo corpo e o devoraram.

E voltou a referir-se ao pedido de missas e o mais, sobre tudo a prontificação de uma canoinha com todos os pertences, pintada de preto e branco e com uma cruz, signal de seu falecimento, para ser remetida a N. S. de Matosinhos, em Portugal.

Por fim Margarida declarou prever a sua morte – não seria igual a de seu tio.

Estava prestes a voltar a si, a recobrar os sentidos, e sua mãe, visivelmente abatida e consternada pela grande desgraça que lentamente vitima sua filha, pediu em nome de Deus a Patella, que deixasse-a, pois tudo quanto pedia a Margarida seria religiosamente cumprido.

Este fato, tão anormal quanto verídico, teve há dias completa reprodução em uma das seções da repartição de segurança pública.

No dia 20 próximo passado, a mãe de Margarida procurou o sub-prefeito de serviço relatando-lhe o que acima já dissemos, pediu o auxílio da autoridade para realizar a arrecadação dos bens falados por sua filha.  

Estranhos, na verdade, semelhantes fatos esta autoridade dispunha-se a levar o ocorrido ao conhecimento do dr. chefe de segurança quando a menor foi acometida da crise a que já nos referimos.

Aproveitando a presença do sr. dr. chefe de segurança e de alguns médicos que ali se achavam, tentou-se uma sessão de hipnotismo.

Em primeiro lugar foi a tentativa feita pelo sr. dr. Bulcão Vianna, nada conseguindo.

Seguiu-o o dr. Jesuíno Palhano, que depois de muito trabalho conseguiu hipnotisá-la.

A todas as ordens de seu hipnotizador obedeceu a hipnotizada menos à narração da morte, que era interrompida por violentos ataques.

Por fim o sr. dr. Palhano mostrando-lhe um jornal perguntou:

  • Que nome é esse?
  • Não sei ler.

O dr. Palhano insiste e ela responde. Si nãe é…. é José.

E fazendo um esforço supremo levantou-se abrindo os olhos.

É curioso!”

—-

Na edição do dia 30 de janeiro, acrescenta o nosso colega:

“ A menina Margarida foi ontem submetida a uma sessão espírita com a assistência de diversos cavalheiros e algumas senhoras.

Durante a ação espírita Margarida, que apresentou-se calma e tranquila, confirmou a narração dos fatos que já ontem publicamos.

Sabemos que mais revelações foram feitas pela criança, entre elas o paradeiro, nesta capital, do índio Domingos.

O fato, cada vez mais, torna-se curioso, pois muitos objetos indicados por Margarida têm sido encontrados.

Ontem à noite devia ter sido Margarida submetida a hipnotismo, sendo o ilustre sr. dr. Jonathas Pedrosa o hipnotizador”.



 

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NOTA: A imagem utilizada no início desta página é de Manaus no século XIX, e não faz parte do documento original.


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