Espiritismo e a Loucura de Ana Rosa de Jesus 24/01/1896

 

FOLHA DE SERGIPE

ano 4, numero 12

Aracaju, 24 de janeiro de 1896 / p. 2 

(Do Jornal do Comércio)

MAIS UMA VÍTIMA DO ESPIRITISMO

O Sr. Dr. Noemis da Silveira, delegado da 7ª circunscrição urbana, passando casualmente às 9 horas da manhã de ontem pela rua Frei Caneca, acompanhado de seu escrivão o sr. major Armindo Vieira, foi atraído à casa n. 146 da referida rua onde, à força, procuravam expulsar da mesma, uma infeliz mulher de 52 anos de idade de nome Ana Rosa de Jesus, portuguesa, a qual se achava em estado de alta alucinação.

Penetrando na referida casa, verificou a autoridade policial que Ana Rosa havia enlouquecido subitamente, por causa da impressão que lhe causara uma sessão espírita que acabava de assistir na mesma casa.

Providenciando sem demora na remoção da infeliz senhora para o Hospício Nacional de Alienados, iniciou o competente inquérito no qual já foram ouvidos dois filhos de Anna Rosa, de nome Maria Rosa de Oliveira e Manoel de Oliveira Monteiro, e bem assim Manoel Pinheiro da Silva e José Texeira.

Estas testemunhas referiram que Anna Rosa gozava de perfeita saúde e era assaz trabalhadeira.

No dia 18 do corrente foi ela pela primeira vez, e por conselho de várias pessoas adeptas do espiritismo, assistir à prática espírita na Associação Deus, Fé e Caridade, da qual é presidente Manoel de Souza Abalo; isto porque ela desejava encontrar um estímulo que despertasse em seus sobrinhos Antonio de Paiva e Alfredo de Paiva e em seus filhos Manoel de Oliveira e Antonio de Oliveira o amor pelo trabalho.

Continuando Ana Rosa a frequentar aquela associação, de dia para dia mais se acentuava o desequilíbrio de suas faculdades, até que na noite de ante-ontem apareceu completamente louca.

O presidente da Associação Manoel de Souza Abalo, para lhe combater a loucura prescreveu, ou antes ordenou, que ela repetisse certa reza de um livro que lhe forneceu e que ela devia seguidamente colocar sobre um copo de água.

Anna Rosa começou a manifestar a alucinação mental desde o dia em que Abalo procurou convencê-la de que o seu espírito havia sido o de uma pessoa rica e poderosa, conquanto má, sendo este o motivo porque agora sofria, afim de purgar-se dos males que em outra vida originara.

Na sessão de ontem pela manhã disse Abalo que o espírito do marido de Anna Rosa havia sido invocado e que declarara que de preferência queria conversar com ela e pedir-lhe perdão por tê-la tentao por muitas vezes.

Esta declaração de Abalo incutiu no espírito de Rosa grande horror. A invocação do espírito do marido da infeliz foi feita por Paulina Maria Ferreira, médium da Associação.

A filha de Anna Rosa declarou que ao sair da sessão com sua mãe deixou na caixa das esmolas 400  rs. por si e e por ela, por ser isso imposto a todas as pessoas que vão àquela casa.

Disse mais, que viu na casa da Associação e durante a sessão, o presidente Abalo fazer com que dois moços paralíticos conseguissem andar com certa facilidade, mas apesar disso ela fez voto de honra de que não mais tornaria à casa da Associação, em vista do estado de alucinação em que ficou sua mãe.



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NOTAS DO ARQUIVO ESPÍRITA:

1. A acusação de que participar de reuniões espíritas pode levar à loucura faz parte do repertório dos antagonistas do espiritismo desde a época de Kardec até os dias de hoje. Não sendo este o espaço adequado para debater a questão, sugerimos a leitura de outros textos sobre o assunto, começando pelo item XV da introdução de O Livro dos Espíritos. https://livrodosespiritos.wordpress.com/about/introducao-ao-estudo-da-doutrina-espirita/xv-a-loucura-e-suas-causas/ 

2. Os fatos descritos acima teriam acontecido na Associação Espírita (atualmente, “Casa Espírita”) Deus, Fé e Caridade. Essa é uma das instituições espíritas mais antigas do mundo. Situada no bairro Cidade Nova, no Rio de Janeiro, seu primeiro livro de presença datado de 1º de agosto de 1868 tem a assinatura de 63 pessoas, dentre elas: Dr. Adolfo Bezerra de Menezes, Alcindo Guanabara, Dr.Francisco Dias da Cruz, Marechal Hermes da Fonseca e o seu fundador, Manoel de Souza Abalo; este último, mencionado na notícia acima.

3. A Folha de Sergipe apenas republicou o texto veiculado originalmente pelo Jornal do Comércio.

4. A imagem utilizada no início desta página não faz parte do documento original.


 

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