Grupo espírita se manifesta contra atitude do governo do Pará em relação a moradores de rua 10/05/1894

 

CORREIO PARAENSE

ANO 3 NÚMERO 587

10 DE MAIO DE 1894, p.1

As doutrinas que professamos são as do Cristo; que nos ensinam o amor ao próximo, e o exercício da caridade.

Vimos, a vossa presença, cumprir o maior dos nossos deveres – o amor ao próximo; e, ao mesmo tempo, rogar-vos para que exerçais a maior das virtudes, – a caridade.

Ouvi-nos:

Julgou-se necessário uma medida violenta; mas que nem foi acertada na ocasião, e muito menos justa, e prudentemente executada.

Não foi acertada, porque os vagabundos da capital são tipos conhecidos, que se poderiam ter removido sem aparato, sem violência, e conforme fossem delinquindo.

Não foi justa, nem prudentemente executada; porque foi precipitada, parcial, e até certo ponto arbitrária, pois que, quem é artista não pode ser vagabundo, e quando o seja, faz-se-lhe trabalhar, mas não se o interna em uma fortaleza.

No entanto, a autoridade policial da noite para o dia, enche a cadeia pública de cidadãos que encontra pelas ruas desta cidade, alta noite os faz embarcar no “Caçador”, que segue imediatamente para Macapá, e os despeja na Fortaleza, debaixo de suas abobadas humidas e pestilentas; onde, acabamos de saber, sofrem as maiores mizérias, pois que, são mal alimentados, se acham imundos, esfarrapados, e sem terem, se quer, um leito onde possam descansar o alquebrado corpo, das violências imerecidas.

Dormem sobre pedras, aglomerados, abafados, e em pouco tempo estarão envenenados pelo ar viciado que respiram.

Será isto justo e humanitário?

Cidadão Governador – Não permitais que permaneça, por mais tempo em vossa admnistração, um fato tão grave, um quadro tão repugnante.

O que fizeram aqueles nossos infelizes irmãos para serem votados a uma tamanha punição?

Sois filho deste Estado, e bem sabeis que nunca houve necessidade de deportação em massa.

Não carregues com a responsabilidade moral, que a imprudente execução de tal medida possa produzir.

Convencei-vos de que não se infringe impunemente as leis de Deus, que nos manda amar ao próximo como a nós mesmos, e não fazer a outrem o que não desejamos que se nos faça.

Não deixeis que se fotografe na tela dos céus, esse quadro de violência, miséria e opressão; porque será ele um dos panoramas constantes para vosso espírito, quando no espaço.

Não, não deixeis!

Reparai a violência com o perdão, a injustiça com a liberdade!

E por que não?

Quererais que maldigam a jovem República, o regime da liberdade, igualdade e fraternidade; quando o primeiro magistrado dela acaba de decretar o perdão a todos os réus sentenciados (atendei bem) em virtude da lei de 1835!?

De mais, era necessário um corretivo, eles já o sofreram; portanto basta de torturas imerecidas.

Cidadão Governador – Depende de vossas mãos esta petição, concebemos a grata esperança de que não recusareis a ocasião que Deus vos oferece para demonstrares os vossos sentimentos humanitários.

Sim, sede cristão antes de serdes governador; sede humano antes de serdes político, sede republicano para não seres déspota.

Em nome de Deus, piedade, compaixão, caridade.

Lembrai-vos das palavras do Cristo: “Outrora tomava-se o céu pela violência, hoje toma-se pela brandura”.

E não foi assim que raiou a aurora do dia 15 de novembro de 1889?

Pois bem, em nome da República, também, piedade.

Cidadão governador – O grupo espírita “Luz e Caridade” cumprindo o dever que lhe impõe as doutrinas que professa, vem humildemente merecer de vossa retidão um ato de justiça: mandando restituir à liberdade, às suas famílias e ao trabalho, os nossos concidadãos que não forem reconhecidamente vagabundos e desordeiros.

Sala das sessões do Grupo Espírita “Luz e Caridade”, em 13 de Outubro de 1890.

Abel Augusto Cezar de Araujo

José Shawe da Motta e Silva

José Joaquim da Silva

Manoel Gonçalves da Silva

João M. Castello Branco

Feliciano Ferreira Bentes

Antônio da Motta

Pedro Damasceno de A. Bentes


Para ver o documento original clique aqui.


 NOTAS DO ARQUIVO ESPÍRITA:

  1. No final do século XIX todos os moradores de rua da cidade de Bélem (PA) foram recolhidos e aprisionados no forte de Macapá. Estas pessoas, provavelmente ex-escravos, estavam sendo submetidas a um tratamento desumano. Contra essa injustiça, o Grupo espírita Luz e Caridade escreveu uma carta ao governador do estado em 13/10/1890 mas apenas publicada no Correio Paraense em 10/05/1894.
  2. A imagem utilizada no início desta página não faz parte do documento original.

 

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