Controvérsia entre o bispo de Cuiabá e um espírita (4/2/1894)

 

O MATTO-GROSSO: orgão do partido republicano

Cuiabá, 4 de fevereiro de 1894

ano XVI numero 722 , p.4

SEÇÃO A PARTE

A CARTA PASTORAL

Tendo finalmente, a Gazeta Official concluído a publicação da carta pastoral, com que o Sr. Dr. Carlos Luiz d’Amour, digníssimo bispo de Cuiabá, vem em socorro das desgarradas ovelhas do seu rebanho, colhidas nas malhas da rede de Satanás, representada pela doutrina espírita; cumprimos o grato dever de vir refutá-la demonstrando de que lado está o erro, a má fé, o obscurantismo e o verdadeiro diabolismo.

A simples leitura dessa peça, escrita num palácio pelo representante daquele que veio ao mundo em uma humilde palhoça, basta para demonstrar cabalmente a pretenção dos que querem tolher os direitos do livre exame, um dos mais elevados sentimentos com que o criador dotou o homem, com o fim de continuarem envoltos nas trevas do obscurantismo, a exercer um poder que a razão repele e que, está em completa discordância com a humildade pregada pelo fundador do Cristianismo.

Ainda que muito nos pese, vos diremos: os tempos do vosso domínio são passados; a verdade triunfa do erro, e a verdade da doutrina do Cristo vai se firmando na terra.

O fim do espiritismo, a que chamais diabolismo e tanto condenais por chocar algumas das fórmulas vãs do vosso culto externo, é estreitar os laços que prendem os membros da família humana, mostrar ao homem qual o seu verdadeiro destino, o seu papel na criação, e gravar nos corações de todos, os santos preceitos que Jesus nos veio ensinar por ordem de Deus.

Sua missão é santa; ela se há de cumprir levantando sobre os destroços das pompas vãs de um culto material e idólatra, a cruz singela dos verdadeiros discípulos de Jesus.

é pelo fruto que se conhece a árvore, Cristo o dise; e é por seus frutos que vamos comparar o espiritismo ou cristianismo com o vosso catolicismo.

Dizeis que aquele não é novo, ele vem dos começos da humanidade e teve origem na remota antiguidade; é uma verdade. Estudai-o, porém , desde o seu começo até hoje, vêde se ele deixou rastros de sangue em sua passagem, se procurou desunir os homens, e se assinalou a sua marcha pelo nosso planeta, levantndo fogueiras e inventando as horríveis torturas do santo ofício!

Admitamos mesmo que algum adepto do espiritismo, tenha sucumbido na luta e procurado no suicídio um alívio aos sofrimentos terrenos, contra os ensinamento dessa santa doutrina; dizei-me qual a ciência, qual a religião que não tenha concorrido com o seu contingente para aumentar o número desses infelizes?

Não pode concorrer para o suicídio a doutrina que ensina: que a vida terrena é uma provação escolhida pelo próprio espírito e necessária para o seu avanço, e que aquele que corta o fio de sua existência tem de recomeçá-la em condições piores.

O espiritismo ensina o amor, a fraternidade, a tolerância, a paciência, a humildade e a resignação; são bons os frutos, a árvore não pode ser má. Não há ci~encia, não há religião alguma que não conte em seu seio fanáticos, indivíduos que se deixam dominar exclusivamente por uma ideia, atirando-se cega e inconsideravelmente, contra tudo que se lhes figure ir de encontro a ela.

Somos os primeiros a reconhecer que, como todas as outras ciências e religiõe, o espiritismo prático tem seus escolhos e perigos; e por isso sempre aconselhamos toda prudência nesses estudos.

O Espiritismo não consiste nessas manifestações dadas a esmo, com o fim de satisfazer curiosidades, mas sim o meio de lhes ensinar e serem precavidos e prudentes em suas relações com o mundo espiritual, a jamais calcarem sua razão, o atributo mais nobre que Deus nos concedeu.

Quereis conhecer essa filosofia sublime?

Recorrei aos trabalhos de Bergerce, Delormel, Bounet, João Raynaud, Dupont de Nemours, Ballanche, Lessing, Constant Savy, de Codre, de Brotonne: lêde – A pluralidade das existências de Pezzani, – O mundo marcha e a profissão do século XIX de Pelletan – As verdadeiras transformações e E. Castellar e as – Últimas declarações filosófico-religiosas de Victor Hugo; estudai a filosofia espírita de Allan Kardec, e então podereis julgar o que seja o espiritismo.

Os verdadeiros discípulos de Jesus são os que hoje caminham sobre suas pegadas, e alumiados pel farol do espiritismo, isto é, assistidos pelos espíritos do Senhor, e guiados por eles, buscam a verdade de suas palavras para pô-las em prática.

Preparamos o verdadeiro caminho que conduz ao reino de Deus, isto é, à perfeição moral e intelectual. O espiritismo tem portanto um fim: a perfeição humana; empregando três meios para alcançá-la: o amor, o estudo e a caridade.

Foi o mesmo Jesus quem disse que Ele viria em Espírito de Verdade para nos dar conhecimento de tudo o que, ainda por muito tempo, devia ficar oculto; ensinando-nos então a fitar a luz santa sem ficarmos deslumbrados.

O Espírito de verdade, anunciado, não é em si, um ser corpóreo ou fluídico, é o conhecimento inteiro da verdade, conhecimento que só podemos adquirir pelo nosso aperfeiçoamento; e o nosso aperfeiçoamento não pode ser operado si não pelos espíritos do Senhor, quer errantes, quer encarnados – em missão – sob a sua direção e proteção; eis porque Jesus toma o título de Cristo ou Enviado e de “Espírito de Verdade” como complemento e sanção da verdade.

Assim pois, devemos pelo “Espírito de Verdade anunciado” entender de um modo complexo e simbólico ao mesmo tempo: os espíritos elevados que acompanharam Jesus em sua missão, como precursores, os quais nos conduzem sob sua direção, na era nova e preparatória do espiritismo, gradualmente, pouco a pouco, ao conhecimento inteiro da verdade; e Jesus, Espírito de Verdade, como complemento e sanção da verdade, devendo vir dar aos homens esse conhecimento inteiro quando, prontos a recebê-lo, forem dignos e capazes de o aplicar.

Se o espiritismo, como bem dizeis, vem dos começos da humanidade, e ainda vive, é que ele tem um fundo de verdade sublime que a maldade dos fariseus antigos e modernos não pode e não poderá destruir.

Agora vós.

Em um século em que as grandes ideias se atropelam, e de seu marulho surgem as grandes maravilhas, inspiradas ao homem para o seu próprio assombro e orgulho; em um século onde o impossível parece tender a tornar-se um anacronismo nos vocabulários humanos; em um século, finalmente, em que cada um tem em si a convicção do livre pensar, custa a crer na intolerância de um clero que ainda no fim do século 19 venha aterrorizar os crentes com inferno, purgatório, penas eternas, ressurreição da carne, e outras invenções criadas pelo catolicismo, com o fim de subjugar-lhes a consciência, e de afastar-lhes do conhecimento da verdade.

Felizmente o ultramontanismo vai dia a dia perdendo seus redutos da ignorância e fanatismo dos que acreditam em tais frioleiras.

A mentira adoçada por lábios sacrilegos que outrora infiltrava-se no espírito ignorante das massas, que só julgavam encontrar nas igrejas, aos pés dos sacerdotes, e no confissionário a remissão de suas faltas, e a única luz que os devia guiar à salvação, vai achando nas massas retemperadas de hoje um resistência tenaz e vigorosa.

Não é certamente o materialismo que impera, nem que forma elementos de força para o combate desse feudo anacrônico, que no seio das trevas denominou – CATOLICISMO ROMANO – não, são os espiritualistas pronunciados, crentes sinceros das verdades ensinadas pelo Divino Mestre, que veno o desvairamento dos falsos apóstolos, vem pressurosos cumprir o sagrado dever de lançar fora do Templo insaciáveis mercadores.

Ninguém espere opor diques à torrente que impetuosa se desencadeia das montanhas e tente perpetuar a vida de um moribundo que se estorce nas vascas da agonia!

É tempo de atender a voz do progresso, de abrir os olhos aos esplendores da luz, que em infinitos raios  corta o espaço em todas as direções e abrir os ouvidos aos sons dos hinos harmoniosos que a orquestra divina faz transportar por toda parte nas asas do progresso universal.

É chegado o tempo de desaparecer esse poder efêmero, que firmou seus alicerces,  levantou suas colunas com os elementos do terror, que soube implantar no seio virgem de ignorantes crentes.

Já ninguém aceita a palavra inspirada do sacerdote, que salva almas por dinheiro, batiza e casa por dinheiro, roza a Deus por dinheiro; e que quando seus infelizes irmãos em crença, desprotegidos e abandonados, sentem roçar-lhes a fronte a gélida mão da morte, e pedem, como consolo a visita sacramental, ainda para isso é preciso dar dinheiro!!!

Oh! Que religião é essa?

Do Cristo? Não, mil vezes não!

Nem ****, nem bordão, era a recomendação que fazia ele aos seus discípulos encarregados de anunciar as verdades aos povos preparados para recebê-las. Fazeis ou tendes feito o mesmo? É por ventura velando leitos mortuários em casa de ilustres generais, como a bem pouco aqui se deu, e deixando em completo abandono os infelizes que sucumbem nos hospitais e em míseras cabanas sem uma voz amiga que os alente, que pretendeis exercitar a caridade?

A secretária do vosso bispado tem as gavetas abertas para receber, não o ceitil da viúva no gazofilácio, mas suculentas recompensas por dispensas matrimonais; e é nessa alfândega episcopal, que se encontra uma tabela de preços correntes para tudo quanto é religioso e tendente à salvação das almas!

E dizem, oh! Deus! que são representantes de Cristo na Terra!

Basta, basta de zombar dos homens de boa fé! basta, chegou a vez de cair a mentira e leventar-se a verdade; a verdade é o progresso, o progresso é a luz, e a luz é Cristo!

Queremos todos caminhar e saber como, e para onde caminhamos; e não nos deixaremos arrastar á imposição de um poder fanático, despótico e incongruente!

O melhor culto a Deus é o trabalho justo e honesto, o trabalho que eleva e enobrece o homem, que o coloca em condições de ser útil a si, à família, à sociedade e à toda a humanidade.

É esta a lei de Deus; e a lei de Deus é o amor de seus semelhantes, o amor de seus semelhantes é a caridade, sem a qual, não há, não pode haver salvação.

Em vez de chamardes a atenção dos vossos crentes para o espiritismo, porque não lhes ensinais a ver em cada um dos desgraçados que imploram a caridade pública,um infeliz irmão que espia suas faltas passadas, depurando-se no cadinho dos sofrimentos, para subirem limpos à presença de Deus?

Ensinai-os a orar por seus irmãos sofredores da terra e do espaço.

Orar é pedir, e Cristo é quem nos ensina como, quando e onde devemos orar.

Fechai-vos em vosso quarto, e sem que alguém vos ouça, dizei: Pai nosso, etc.

Ao contrário de tudo isso, quiseste com a vossa pastoral, sopear a razão, encadear a inteligência, impedir o vôo dos gênios, fazendo crer no absurdo, e por isso, não deveis esperar senão a reação, que a incredulidade, promovida pela infalibilidade do erro, desperta em nosso espírito.

Felizmente, a luz do progresso espancando desapiedadamente as trevas desse passado cheio de sombras, que ainda ontem fazia levantar fogueiras onde envoltos em chamas e rolos negros de fumo subiam os gemidos de milhares de vítimas, que a santa inquisição votara a tão horroroso martírio, franqueou as portas do pensamento, até a pouco fechadas aos operários do progresso universal!

Agora que desapareceu nas sombras da noite esse poder nefasto, que tingiu de sangue as páginas da história da idade média e uma boa parte da nossa, podemos entrar em campo, medir desassombradamente as nossas armas, retemperadas nas lutas do trabalho físico, intelectual e moral, e ver as frontes sobre as quais devem pender os louros da vitória.

Esta é a nossa tarefa.

(continua).

LÁZARO



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Notas do Arquivo Espírita:

  1. Nessa polêmica, o autor do artigo, que é espírita, assina apenas como “Lázaro”. Provavelmente um pseudônimo.
  2. A imagem no início desta página não faz parte do documento original.

 


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