1ª psicografia publicada no Brasil (07/1869)

Periódico: O Eco d’além-Túmulo

Salvador, Bahia – Julho de 1869, número 1, p. 33-35


COMUNICAÇÕES ESCRITAS ESPONTANEAMENTE

I

(Bahia: 1868 – Fevereiro, 2 – Médium, L.**)

Em todos os tempos os espíritos se comunicaram com os homens, que também são espíritos, porém em outras condições de vida: o homem é, portanto, um espírito encarnado para expiar culpas [de ações] por ele cometidas, ou provar seu amor ao nosso bom Pai e Senhor, o Onipotente Deus criador do universo.

Não deve isso causar nenhuma admiração aos homens instruídos na história do mundo, porque em todos os povos eles encontram essa crença, ora escrita, ora tradicional; mas o amor-próprio excessivo tem obscurecido esses homens a ponto de somente acreditarem naquilo que eles vêem e tocam, sem se preocuparem com aquilo, que, ainda sentindo, não vêem nem tocam, atribuindo, levianamente, efeitos que sentem produzirem-se, ao nada, que tanto vale [quanto] o acaso, [e] que nada representa para o homem em nenhuma ordem de ideias.

A ingratidão do homem para com o seu Criador é a causa desse obscurecimento, porque do contrário ele reconheceria que todo o bem, de que goza, não é obra sua, nem dos outros homens; mas da bondade e misericórdia infinitas de Deus onipotente.

Os espíritos superiores e santos comunicam-se com os homens, porque a misericórdia divina viu que somente com guias fora das contingências da carne é que a humanidade podia elevar-se em espírito acima das coisas da Terra, e contemplar o mundo espiritual, que é o modo de existência e vida permanente, onde o espírito vive, conforme o estado moral adquirido na vida da carne. O mundo material é o trabalho do espírito; o mundo espiritual é o salário do trabalho, que é retribuído conforme a perfeição com que fora executado. Sem esses meios fornecidos ao homem pela misericórdia de Deus, o homem não encontraria, em sua razão limitada e contingente, meio de transpor as barreiras do mundo material, e penetrar no mundo espiritual; e por isso, Deus, em sua presciência, decretou que o homem devia crer por fé na comunicação dos Santos, e inspirou por seu Divino Espírito aos apóstolos de nosso Redentor, o Senhor Jesus Cristo, pregar por toda a Terra que os fieis deviam crer na comunicação dos Santos como uma verdade da Santa Religião de Deus.

A Moisés manifestara-se Deus, diretamente entregando-lhe sem mediação alguma os fundamentos sempiternos de sua Religião.

Os Profetas foram mandados para darem testemunho da Lei, e ensinarem aos homens em geral o caminho, pelo qual deviam seguir para receberem o prêmio de terem cumprido os preceitos da Lei: esse caminho foi Jesus Cristo, o Messias anunciado para explicar a doutrina da Lei, que tendo sido dada pelo Pai, somente o Filho podia e sabia explicar, porque o Pai está no Filho e o Filho está no Pai.

A doutrina explicada por Jesus Cristo Filho de Deus, foi ensinada e pregada pelos Apóstolos, instituídos sacerdotes da Religião de Deus, e para que o ensino fosse perpetuado conforme era a vontade de Deus-Pai, manifestada na Terra de um modo visível entre os homens pelo exemplo de Deus-Filho, único que podia, por sua perfeição infinita, exemplificar a Lei de Deus-Pai, enviou sobre os Apóstolos o seu Santo Espírito para que também os homens adquirissem a fé da comunicação de Deus com sua amada criatura, à quem revelara que derramaria do seu Santo Espírito sobre toda a humanidade.

Assim, meus filhos, chegado são os tempos, em que Deus viu que esse ato de Sua misericórdia devia ser necessário para levantar a humanidade do abismo insondável da incredulidade, em que pela sua cegueira está se afundando:

– aquelas criaturas, que, por sua fé e boas obras, forem servos fiéis de Deus, receberão a comunicação direta do Espírito de Deus, como receberam os Profetas e os Apóstolos, e como os Profetas e os Apóstolos, também profetizarão.

– aquelas criaturas, que não forem servos de Deus por sua pouca fé, essas receberão a comunicação indireta do Santo Espírito de Deus, que é a palavra divina, trazida pelos Anjos, e pelos espíritos superiores e santos, comunicada por um dom do Santo e misericordioso Espírito de Deus à sua criatura, ainda que pervertida e ingrata, manifestada por sonhos, visões e infinitos outros meios, só concebidos pela infinita sabedoria de Deus.

Eis aqui, meus filhos, a explicação das manifestações dos espíritos, que hoje se observam em toda a Terra.

SANTO AGOSTINHO


Para ver o documento original digitalizado clique aqui.


Notas do Arquivo Espírita:

  1.  Como é dito na própria mensagem, as manifestações mediúnicas ocorreram ao longo de toda a história da humanidade. Logo, os textos escritos sob inspiração de espíritos também sempre existiram. Quando dissemos que essa é a”primeira psicografia publicada no Brasil” nos referimos, evidentemente, ao período a partir do qual a autoria deste tipo de texto passou a ser mais ostensivamente atribuída aos espíritos, isto é, desde a codificação do Espiritismo.
  2. A psicografia acima encontra-se no primeiro periódico espírita do Brasil: “O Eco d’além-Túmulo“, dirigido por Luís Olímpio Teles de Menezes. A mensagem foi recebida mais de um ano antes de ser publicada.
  3. A primeira comunicação mediúnica do pioneiro grupo espírita de Salvador não foi essa, e aconteceu em 17/09/1865. A mensagem de Santo Agostinho, no entanto, é a primeira que aparece na primeira edição da revista de Luís Olímpio Teles.
  4. Admitindo-se a veracidade das mensagens, Santo Agostinho parece ter sido bem ativo nas primeiras décadas de  divulgação do espiritismo no Brasil. Além da autoria desta mensagem, ele é citado como protetor e orientador na fundação do Centro Espírita Fé, Esperança e Caridade de Uberlândia em mensagem já publicada aqui. Também foi autor espiritual de outros textos que publicaremos futuramente.

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