“A missão da mulher” por Amália Domingo Soler – 02/1907

Periódico: Humildade – ano 1, número 03, p. 1
Rio de Janeiro, fevereiro de 1907

A missão da mulher

Ainda a propósito da recente Profissão, no convento de Santa Tereza, e para que meditem aqueles que julgam ser o claustro ou a meditação o melhor meio de servir a Deus, publicamos abaixo a excelente carta da distinta escritora D. Amália Domingo Soler, que extraímos da revista Aurora Espírita do Recife.

Ei-la:

“Entre as muitas visitas que recebo continuamente, deixou-me uma gratíssima lembrança a de uma mulher jovem e bela, cujos olhos brilhavam extraordinariamente, e tinha em seu semblante tanta vida ao ponto de parecer que todas as primaveras de centenas de séculos lhe haviam deixado no gracioso rosto as suas flores e os seus raios de sol.

Quando falava, falavam os seus olhos, as suas mãos, todo o seu ser se animava de modo tão assombroso que parecia não pertencer a este mundo.

Espírita desde os antepassados, desde que veio ultimamente à terra, ouviu em torno de si falar de Espiritismo. Em sua numerosa família havia muitos médiuns, ela o era também, muito entusiasta por certo, quiçá demasiado, porque para ela não há trabalho mais útil que propagar o Espiritismo e falar a tempo e fora de tempo, nas ruas e nas praças, da vida de além-túmulo.

Depois de falar da marcha geral do Espiritismo, olhando-me fixamente, me disse assim:

– Vou pedir-lhe um favor.

– Fala; que queres?

– Que me diga por escrito de que modo cumpre melhor a mulher espírita a sua missão neste mundo; porque entendo que a mulher que tem faculdades mediúnicas para difundir a luz do Espiritismo, não deve casar-se, deve dedicar-se ao apostolado da verdade; minhas irmãs vão-se casando, e cada vez que uma se casa eu digo com tristeza: Um astro de menos no céu do Progresso. Um novo desertor das fileiras do adiantamento!… Não seguirei eu seus passos.

– Pois farás muito mal, se te consagra o seu amor um homem de bem.

– E onde fica a propaganda do Espiritismo?

– E supões tu que não há outros meios de fazer propaganda senão comparecer aos centros espíritas e dar conferências e sustentar polêmicas com ateus e fanáticos religiosos? A verdade se manifesta de muitas maneiras, e uma mãe de família que tenha estudado a fundo o Espiritismo, é a melhor propagandista da religião do porvir.

– Não se embocam de sua casa? não dizendo esta vendo me pertence?

– E acaso é indispensável correr seca e meca [i.e., viajar muito] para demonstrar praticamente que se está de posse da verdade? Não, minha filha não; a mulher desde o santuário do lar pode fazer valer a verdade do Espiritismo; a mulher casada e mãe é chamada a regenerar a sociedade, e a que encontrar um homem generoso que lhe diga: “apoia-te em mim, e nos ajudaremos mutuamente para lutar e progredir”, deve aceitar o oferecimento, se não sente por ele antipatia; e como a união é a força dos seres unidos pelo amor e pelo desejo de difundir a luz, podem fazer prodígios, e mais ainda se vem a ser os pais de diversos seres que baixam à Terra para cumprir grandes missões.

O Espiritismo não precisa de sacerdotisas nem de apóstolos especiais; todas as mulheres podem ser sacerdotisas dentro do seu lar, e os homens podem ser apóstolos na oficina do operário, nas lucubrações do artista, nos afazeres do comerciante, no fundo das minas, nos cumes das montanhas, quebrando pedra ou servindo de mergulhadores para arrebatar aos mares os tesouros escondidos; em toda parte pode o homem manisfestar os seus bons sentimentos, a sua resignação, a sua íntima convicção de que o que não se ganha não se obtém.

Que é o espírita? Um homem persuadido de que Deus é justo, de que suas leis são imutáveis, de que ninguém tem mais do que merece, e de que cada um é o árbitro de seu destino; que pode afundar-se no abismo da degradação ou ascender pela escada do infinito até chegar a ser o redentor de um mundo; e para ter esta íntima convicção da grandeza e do poder de seu espírito, não precisa o homem nem a mulher abandonar o seu lar e correr por esses mundos de Deus anunciando a boa nova como têm feito os sectários de muitas religiões.

Não, a propaganda do Espiritismo não precisa de parasitas que vivam à custa da credulidade e da ignorância dos crentes espíritas; o verdadeiro espírita se distingue pelo seu amor ao trabalho, pela sua atividade em praticar o bem, pelo seu desejo de que reine a paz e a concórdia dentro dos lares, porque em regra geral cada casa é um inferno. O Espiritismo não se contenta com as pompas mundanas, com os aplausos nas grandes reuniões ou com as lisonjas periodísticas; tudo isso é fumo, toda essa glória fictícia desaparece quando o propagandista mais afamado deixa o seu corpo no túmulo e regressa ao espaço, supondo que vão recebê-lo com palmas e ramos de oliveira, e encontra-se com os indivíduos de sua família aos quais abandonara. Que anomalia! …abandonar os seres que dele dependiam para declarar pelas ruas e pelas praças que Deus é justo!… que Deus é grande! … que Deus é bom! …Os seus apóstolos rompem os seus laços de família, deixando de cumprir com seus mais sagrados deveres.

O Espiritismo, felizmente, não precisa, como a religião romana escravizar centenas de mulheres para que vivam consagradas a Deus; as mulheres espíritas se consagram a Deus fazendo seu lar um céu, tolerando os defeitos de seu marido, educando os seus filhos, instruindo-os acerca dos absurdos religiosos, e fazendo-os entrar nos templos da ciência; esta é a missão da mulher espírita, a missão maior, a missão mais útil, a missão mais proveitosa que pode desempenhar uma mulher na Terra; e tu que és jovem, tu que reúnes atrativos bastantes para impressionar um homem jovem como tu, se encontrares em teu caminho uma alma nobre e entusiasta que te diga: “Queres ser a companheira da minha vida? Queres ser a mãe dos meus filhos?”, se não sentes por ele essa aversão misteriosa que às vezes nos inspiram os nossos inimigos de outrora, estende-lhe a tua destra e responde-lhe com doçura: “Façamos juntos a nossa jornada e sejamos úteis à humanidade”. E acredita-me, minha filha, se te casas – e a seu tempo devido se vai povoando o teu lar de alegres pequeninos, e velas o seu sono, e te comprazes em inculcar em seus ternos corações os princípios da moral mais pura e os levas a visitar os enfermos, e os acostumas a repartir as suas economias com outros meninos que não têm pão nem brinquedos, vais despertando em teus filhos os mais generosos sentimentos; não te parece que fazes a melhor propaganda do Espiritismo? Teus olhos me dizem que não te convencem minhas palavras; seduzem-te as reuniões espíritas, onde te esperam com os braços abertos, porque falas muito bem. Não te digo que renuncies a elas; o que aconselho é que não desprezes o amor de um homem de bem, porque no teu lar podes fazer a melhor propaganda; e o Espiritismo não precisa de sacerdotisas nem de apóstolos; não tem templos, nem mistérios a guardar; é simplesmente a demonstração da vida eterna do espírito e do seu progresso indefinido; e os seus melhores sacerdotes são os que sabem educar os seus filhos, preparando-os para um futuro redentor da humanidade”.

Amália Domingo Soler


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