A todos os bons espíritas, por Bezerra de Menezes (espírito)

Periódico: Perdão, Amor e Caridade – Ano VI Número 64
Franca, SP, 01 de janeiro de 1902

Vamos reproduzir uma comunicação que publicamos em nossa edição de 01 de julho de 1900, assinada [por] Bezerra de Menezes:

A todos os bons espíritas

“Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.”

“Deixai os mortos cuidar de seus mortos.”

“Quem não é por mim é contra mim.”

Palavras do Divino Mestre

Já era tempo que se rasgasse de uma vez o véu do antigo templo e que da placenta a que se achavam agarrados supersticiosamente os irmãos espíritas se destacasse o feto.

Desde muito tempo (e eu o disse muitas vezes em meus escritos) que a igreja romana deixou de ser a depositária das verdades do Divino Mestre.

Antigos e mal compreendidos preconceitos, e além disso o receio de entrar numa luta que poderia perturbar algumas consciências timoratas obstou a que o trigo fosse separado do joio e que se deixasse a igreja com suas doutrinas, seguindo cada um aquelas que o Divino Mestre lhe ensinou.

Estes preconceitos ainda nos levaram a aceitar o auxílio da igreja romana, e a maior parte dos espíritas, mesmo os mais convictos, frequentavam por conveniências sociais as suas práticas.

Providencialmente, quis o Senhor que a própria igreja, do alto do trono de sua ignorância, viesse ela própria, afastar com o pé esses elementos que considerava heterogêneos ou contrários, e a luta está travada: Ou ser espírita, ficar fora da caridade e dentro da igreja, e, portanto não ser coisa alguma, ou ser espírita e dentro da caridade ficar fora da igreja sendo espírita.

Não mais o espírita poder contar com os sufrágios pagos e encomendados da igreja, tem de escolher entre a prece de seus irmãos em crença e as rezas dos que se consideram pertencentes a uma raça estranha a humanidade.

Eis o dilema. Devo ao Senhor mais esta graça, porque é em torno da minha humilde individualidade que esta luta tem princípio e da qual deve sair o atrito que dará a luz.

Ficará a igreja cuidando dos seus mortos e os da vida viva, como bem disse o bom Vieira, cuidarão dos seus vivos.

Depois dizei com toda a sinceridade de vossas consciências: Que ireis vós buscar às igrejas? Adorar e prostrar-vos diante das imagens que ela para si fez e sem as quais cessariam todos os seus proventos? Mas vós não precisais para o cumprimento de vossas missões e dos vossos deveres de cristãos espíritas, curvar-vos perante o material que orna estes templos, quando vós sabeis que onde estais dois ou três em nome do Senhor, ele se acha aí, não em imagem mal simulada, mas em espírito, e portanto, aí está a verdadeira igreja.

Se recorríeis aos serviços dos sacerdotes, que representam hoje essa agremiação para batizar vossos filhos, esquecia-vos talvez, que o batismo da água não é o batismo dos padres, e a virtude não sai das pias, nem da água que para todos os misteres nos serve; mas da água da vida, isto é, da crença que dá a fé, da certeza que dá a esperança, da pureza que dá a caridade.

Sois vós, pois, quem assim batizareis vossos filhos, se estais com a verdade, pois ela só poderá sair de vós, para dar a virtude do batismo e não daqueles que a não procuraram ou a não querem receber.

Se do mesmo modo, recorríeis ao auxílio do padre para unir em matrimônio vossos filhos, íeis pedir ao padre a sansão que o Senhor já lhes tem dado se eles se amam, porque pelo Senhor já estão reunidos, e o padre nada pode nem tem aqui coisa alguma a fazer. Só das leis que vos governam podereis esperar a sansão que vos garanta o futuro da companheira e da prole; o resto porém, está feito; nem o padre, nem a própria lei, poderão unir aquilo que está desunido, nem desunir tão pouco, o que Deus uniu.

Em suma: A luta está aberta e não fostes vós que a procurastes; entretanto, chegou o tempo de vos definirdes, de que o trigo seja separado do joio e que seja dado à igreja o que é da igreja. Já sabeis que não tereis mais batizados, nem casamentos, nem missas, estais fora da igreja porque sois contra a igreja; se a quereis seguir, retrocedei do caminho: Acompanhai-a.

Sereis fracos, mas ao menos sereis sinceros. O espiritismo perde um trabalhador, mas o seu trabalho é prejudicial e a igreja também nada aproveitará com ele. Se sois porém espíritas, se tendes um templo em vossa casa, uma igreja em vossos corações, um conselheiro na doutrina do Senhor, um confessor em vosso anjo da guarda, então declarai-o alto e claro, para que todos o saibam; sereis repudiados e talvez escarnecidos pelo coro dos materialistas que vos combate a vós e à igreja e pelos da igreja que se unem a eles para vos combaterem a vós, porque vos temem mais a vós do que a eles.

Precisais, pois, revestir-vos hoje de muita fé e muita paciência; porque mais pesada a vossa tarefa e mais viva a luta. Entretanto, entre a que é de Cristo e a que é do papa a escolha não será difícil.

Peço-vos pois, muita fé, muita humildade. Orai e orai muito; que cada um de vós tome desde já a sua cruz e caminhe; o sirineu será o seu anjo da guarda e o calvário será o seio do Senhor, perto daquele que morreu pela verdade, e pela qual vós somente podereis chegar até Ele.

A todos os irmãos, pois, as minhas preces e a benção do Senhor.

Bezerra de Menezes


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NOTA DO ARQUIVO ESPÍRITA: A imagem no início desta página é o quadro “The Plains of Heaven” de John Martin (aprox. de 1851) e não faz parte do documento original.


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