Sobre o carnaval: “desprendei-vos dessa ilusão que sobre esse povo impera.” – (Espírito anônimo) 27/02/1881

Periódico: União e crença – Ano I número 01, p.3-4

Areias, SP, 24 de março de 1881


Decididamente devo a Deus a perspicácia e o tino com que descubro e penetro os mais íntimos pensamentos.

Eu fui agente de polícia ou algum filósofo sem o saber, mas deixemos de parte os dissabores da vida e vamos seguir como atentos observadores a importante mas ridícula comédia de hoje.

Serve de tablado a cidade inteira, em quase todas as casas reina a boa ordem e harmonia que há nos camarins dos teatros. Inúmeros são os atores que bem ou mal caracterizados representam o seu papel, poucos porém são os que o compreendem.

Converte-se em anarquia a liberdade, e o simulacro de tão variado espetáculo pode ver-se em uma enfermaria de alienados – Diz Alexandre Herculano; há no rir do vulgo o que quer que é de insultuoso que faz dar por terra o maior coração, e prosta o animo mais robusto, eu direi: há no rir do vulgo o que quer que é de ridículo e parvo, que faz dar nas paredes a maior cabeça, e prosta o mais robusto juízo.

Quanto maior é a importância do objeto, mais facilmente se descobre o lado ridículo a que está sujeito tudo no mundo. Quanto maior é a cabeça mais depressa se lhe põem a calva à mostra, se é em alvo leite ou cristalino copo que cai a mosca, mais depressa ela se torna visível, mais saliente se torna a nuvem que se aproxima da lua, se ela é cheia e clara.

Vamos, pois seguir esse exemplo salutar de austera crítica: aqui bebereis algumas lições. Fica, pois entendido que estamos no carnaval.

Dizem que em detestável consórcio une-se a intriga com o fingimento, para empunhando o cetro reinar absolutamente nestes três dias e que do fogo ateado entre os seus vassalos, o resultado é ficarem todos reduzidos a cinzas, no final de tão pequeno reinado.

Não creiam irmãos; desprendei-vos dessa ilusão que sobre esse povo impera.

Acreditai que no vosso mundo dura o carnaval 362 dias, e é durante esse longo tempo que os homens fingem. Eles se intrigam e iludem mutuamente, cobertos com o manto da mais dolorosa Hipocrisia, e nesses três dias, apresentam-se tais quais são; os homens sustentam que obedecem as conveniências sociais e são hipócritas; agora mostram o seu sincero desejo são sinceros, nos três dias do carnaval contentam-se os homens com o riso provocado pelas suas estultas palavras, são melhores, não fazem o mesmo durante o resto do ano do ano. Qual o fim dos homens? Tornarem-se notáveis entre os outros homens atraírem a atenção do público, hoje miram tão bem o mesmo alvo sustentando eles que obedecem as conveniências sociais são hipócritas, agora que mostram pelos trajes o desejo de serem observados; são sinceros.

Aproximemo-nos e vamos ouvir o que dizem eles.

A sua linguagem é própria do personagem que representa; ideias falsas, palavras frívolas, e pela exageração de sua origem mostram a mentira que sustentam, e sem pretender que o acreditem contenta-se com o riso dos que o ouvem, e lisonjeiam-se por cativar as atenções dos circunstantes. Outro tanto não fazem nos 362 dias do carnaval, mentem como agora, esmagam com o poder da ambição suas consciências, e muito mais difícil é o seu papel no decurso de tão longo período: Irmãos, se achais ridícula a comédia de hoje, despi-vos da hipocrisia.

Médium Maria Amélia

A 27 de fevereiro de 1881


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