O último artigo do nosso símbolo católico – espírito anônimo, 1881 (?)

Periódico: União e crença – Ano I número 02, p.3

Areias, SP, 15 de abril de 1881


O último artigo do nosso símbolo católico

A felicidade do homem está em subir frequentes vezes a terra dos vivos, atravessar familiarmente as praças da Celeste Jerusalém, visitando Patriarcas e Profetas, saudando Apóstolos, admirando exércitos de mártires e confessores e contemplando coros de virgens.

Depois de vegetar neste triste vale de lágrimas, é a morte como um verdadeiro amigo que nos levará em seus braços às regiões da vida, da luz e da felicidade.

O Cristão deixando o mundo não deixa de viver, é o contrário, porque, em verdade, neste mundo tudo morre nada vive; sendo ao contrário o céu, o país ditoso onde tudo vive e nada morre; e se amamos a vida, é para justificar a Providência que prometeu ao homem satisfazer eterna e exuberantemente o irresistível desejo da vida; com o qual o dotou.

Tratar de gozar as riquezas, com as quais Deus dotou o homem é dever, e cumpre-o dizendo o credo e conformando com ele o seu teor de vida.

E onde nos conduzirá tais riquezas?

O último artigo do nono Símbolo Católico nos responderá: a vida mais a vida eterna, com plenitude de gozo, plenitude de totalidade, e plenitude de duração.

Irmãos, espíritos, amigos. O Cristão deixando o mundo não deixa de viver, é o contrário. Vamos estudar esta frase – No céu tudo vive e nada morre.

No céu tudo vive e nada morre, quer dizer, que ali reina a vida em sua plena totalidade. Vive o homem todo, vive cada um dos sentidos; o corpo vive, o espírito vive.

Assim como foram os olhos feitos para ver, foi o espírito para conhecer a vida.

Não vês como o homem gasta os mais belos dias da sua infância e mocidade, em estudar uma ciência, uma arte, um ofício, somente com o fim de satisfazer o irresistível desejo de seu espírito; não compreendem, mais tarde, os sacrifícios que fazem para se aperfeiçoar na sua profissão; e quantas vezes empreendem grandes viagens, escalam montanhas, atravessas mares, descendo até as entranhas da terra, gastando-se assim em prolongadas vigílias e fadigas; e qual o fim de tudo isto?

O aumento da vida do seu espírito com a posse de alguma nova verdade; mais tarde julgam-se imensamente felizes se, através de um denso véu, descobriram algum segredo do mundo moral, ou do mundo físico; e o que são todas as verdades que  podem descobrir no mundo?

Apenas vestígios do Criador. O espírito tornando-se […] verá a primeira vista, não pequenos raios de verdade, mas verdade plena, e tanto no passado, como no presente, ou no futuro; no mundo moral ou no físico; verá quanto seja necessário para sua completa felicidade; não como através de um deuro véu, ou em um espelho, mas, realmente, de frente à frente; verá o verdadeiro Criador, Deus em pessoa, e em Deus todas as suas maravilhosas obras; verá as razões íntimas, na ordem material, em virtude das quais foi o mundo criado; conhecerá a causa de todas as revoluções de Globo, que espantam e desafiam todas as ciências; terá conhecimento das razões porque desaparecem as espécies gigantescas do reino vegetal e animal; cujos prodigiosos fragmentos atestam a real magnificência do mundo primitivo.

Terá conhecimento não só dos seres materiais e de sua natureza íntima, desde o infusório até o elefante, desde a águia que paira nos ares, até os monstros marinhos que se escondem no fundo dos mares.

Conhecerá a esplêndida harmonia que forma cada um deles, na cadeia dos entes; o lugar que cada um ocupa no plano de criação; e a providencial função que lhes foi marcada. Mil vezes mais sábio que todos os astrólogos, o mais humilde dos puros espíritos conhecerá sem o mais pequeno estudo o número dos astros, seu volume e natureza, suas razões de ser e as leis que presidem aos seus movimentos.

Tais são, entre muitos, os segredos do mundo material, cujo perfeito conhecimento darão ao espírito êxtases deliciosos.

Não será menos aprazível o conhecimento do mundo moral e a deslumbrante beleza de um anjo, que nossos olhos não poderiam encarar, como não podem encarar os raios do sol; com os olhos do espírito veremos os anjos em toda a sua esplendida natureza, imenso exército cuja boa ordem, harmonia e magnificência, não pode ser comparada a nada no mundo.

Depois dos anjos é a alma humana a mais bela criatura Divina, porque como anjo, foi feita a imagem e semelhança de Deus.

Se a beleza do corpo, grosseira sombra da verdadeira beleza, atrai o mais frio coração, se apaixona e se deslumbra; qual não será o império da beleza da alma?

No País ditoso dos vivos veremos as almas que, desde o começo, se tornaram semelhantes a Deus realizando nelas suas admiráveis perfeições; e veremos, não só o seu exterior como interior, tornadas transparentes como os raios do sol penetra o cristal.

Que inefável doçura para nós vermos interiormente a alma de Nosso Senhor; da Santíssima Virgem Maria e todas as almas cujas heroicas virtudes brilham mais que engastados brilhantes em diadema de rainha.

O Espírito verá o triunfo momentâneo dos maus e a razão deles; os sofrimentos e humilhações dos justos, os seus porquês.

Admirará sobretudo os meios, agora desconhecidos, pelos quais o Nosso Pai Celeste ministrou em todos os tempos e lugares, tanto ao bárbaro como ao pagão e até ao selvagem; as necessárias luzes para abraçar e chegar à vida eterna.

E o espírito encantado com tantas maravilhas dirá: Senhor, quanto fizeste foi bem feito!

Que mais tenho a dizer?

Que o espírito pacífico observador, verá correr tranquilamente, diante dos olhos o impetuoso rio que alegra a cidade de Deus, e o ditoso habitante da terra dos vivos conhecerá, intuitivamente, toda a história do gênero humano.

Assistirá à queda dos impérios e suas fundações. Conhecendo as respectivas causas, verá que todas as monarquias contribuíram, ciente ou inscientemente, bom ou mau grado seu, para o estabelecimento e conservação do imortal reino Redentor.

O Espírito, se não estivesse revestido de uma força sobre-humana, seria tal o seu êxtase contemplando tantas maravilhas, que morreria de admiração!

Em resumo: luz brilhante sem intermitência será repartida: o foco dessa luz será o próprio Deus, o reverberante Nosso Senhor, que a projetará copiosamente sobre seus filhos.

Em vista disto haverá na Glória plenitude de vida instantânea sempre nova e sem intermitência; porque nesse oceano de verdades, sem limite e sem fundo, o espírito verá sempre e sempre, sem nunca chegar ao fim, luz brilhante e sempre nova!

Poucas palavras exprimirão o resto: trabalhemos contra as trevas da ignorância e do erro, almejando sempre voltar ao Pais ditoso da luz, sem lamentar aos que partem em primeiro lugar.

Hoje a vida passageira; amanhã a verdadeira vida.

Até logo

Médium M. Amélia – estado sonambúlico


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