Introdução à primeira edição de “O Eco de Além-túmulo”, por Luis Olímpio (1869)

Periódico: O Eco d’além-Túmulo

Salvador, Bahia – Julho de 1869, número 1, p. 1-9


Introdução

I – Maravilhoso é o fenômeno da manifestação dos Espíritos: e por toda a parte ei-lo que surge e vulgariza-se!

Conhecido desde a mais remota antiguidade, se o vê hoje em pleno século XIX renovado e pela primeira vez observado na América Setentrional, nos Estados Unidos onde produziu-se por movimentos insólitos de objetos diversos, por barulhos, por pancadas e por embates sobremodo extraordinários!

Da América, porém, passa rapidamente à Europa e aí principalmente na França, após um curto período de anos, sabe ele do domínio da curiosidade e entra no vasto campo da ciência.

Novas ideias, emanadas então de milhares de comunicações, obtidas das revelações dos espíritos que se manifestam, quer espontaneamente, quer por evocação, dão lugar à confecção de uma doutrina eminentemente filosófica, a qual no volver de poucos anos tem circulado por toda a terra e penetrado todas as nações, formando em todas elas prosélitos em número tão considerável, que hoje contam-se por milhões.

Nenhum homem concebeu a ideia do Espiritismo: nenhum homem, portanto, é seu autor.

Se os Espíritos se não tivessem manifestado, espontaneamente, certo que não haveria Espiritismo: logo é ele uma questão de fato e não de opinião; e contra o qual não podem, por certo, prevalecer as denegações da incredulidade.

A rapidez de sua propagação prova exuberantemente que se trata de uma grande verdade, que necessariamente, há de triunfar de todas as oposições e de todos os sarcasmos humanos; e isso não é difícil de demonstrar-se, se atendermos que o Espiritismo faz os seus adeptos, principalmente, na classe esclarecida da sociedade.

Nota-se, porém que essas manifestações têm sempre lugar, de preferência, sob a influência de certas pessoas, dotadas de uma faculdade especial e designadas com o nome de médiuns: maravilhosa faculdade que prova, indefectivelmente, ante os olhos pasmos da humanidade, a Onipotência e a Infinita Bondade e Misericórdia de DEUS-TRINO, supremo Criador de todas as coisas.

E, todavia, não é o Espiritismo privilégio exclusivo de ninguém; qualquer pessoa na intimidade de sua família pode encontrar um médium em algum de seus parentes e então, poderá, querendo fazer suas observações, mas não nas deve fazer precipitadamente, a seu modo, nem circunscrevendo-as ao círculo de suas prevenções ou de seus preconceitos, para depois, enfaticamente, concluir pela negativa; sem se avisar de que a negação daquilo, que por qualquer circunstância, não pode ser bem estudado e, por tanto, que ficou mal compreendido, é antes uma prova de leviandade do que de sabedoria.

Não basta também o emprego de algumas horas de observação para que o Espiritismo em sua doutrina, seja devidamente, compreendido; pelo contrário, exige ele como qualquer ciência, além de boa vontade, um longo e sério estudo: e nem se pense que, por ser uma questão de fato, é possível muito ficar sabendo por se ter presenciado um ou outro, isoladamente; porque um fato isolado nem sempre é perfeitamente compreensível, senão depois da observação de outros que com o anterior muitas vezes têm a mais íntima conexão e sem o que, poderá parecer incrível e até contraditório: portanto mister é compulsar e estudar os trabalhos que já existem feitos, para depois saber ver aqueles que se oferecem à sua observação e assim poder compreender a razão de ser que existe neles.

O maravilhoso fenômeno da comunicação dos espíritos e de sua ação no mundo visível, não é mais uma novidade, está demonstrado ser uma consequência das leis imutáveis que regem os mundos; é um fato que se produz desde o aparecimento do primeiro homem e se tem perpetuado em todos os povos, através de todos os tempos e sob caracteres diversos, dando o mais cabal testemunho dessa verdade, os arquivos da história, quer sagrada, quer profana, onde se encontram registrados numerosos fatos de manifestações espíritas.

II – Grandes e importantes são as vantagens que a sociedade aufere do Espiritismo; visto como essa doutrina sublime e providencial que com tanta eficácia contribui para a felicidade do homem, nela exerce poderosa ação, já científica, já moralizadora.

A ação científica do Espiritismo revela-se pelas luminosas explicações e definições claras e precisas que dá de todos os fenômenos à qual se têm dado o nome de sobrenaturais: revela-se também, pelas provas palpáveis que nos dá da pré-existência da individualidade e da imortalidade do ser pensante; demonstrando à luz da evidência a causa das desigualdades morais do mundo visível e invisível, e, portanto, a responsabilidade moral das almas, bem como as penas e as recompensas futuras.

A ação moralizadora do Espiritismo demonstra-se quando consideramos que o egoísmo, essa chaga cancerosa da humanidade, originado pelo materialismo, negação formal de todo o princípio religioso, é, profundamente abalado por essa aurora celestial que a Infinita Misericórdia do Onipotente se dignou de enviar à Terra, como precursora dessa nova e bem aventurada ERA, em que os homens, melhor compreendendo os seus recíprocos deveres de boa vontade cumprirão os salutares preceitos de Jesus, nosso DIVINO SALVADOR: – Amai ao Senhor Teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento[1]. Tudo o que vós quereis que vos façam os homens, fazei também vós a eles[2].

É ainda aurora precursora de nova era, porque a sua luz resplandecente vão se dissipando as sombras da incredulidade e pouco e pouco surgindo a fé e a esperança no coração daqueles que não possuíam tão cândidas virtudes!

E são esses, porventura, maus frutos?

Jesus disse: – Guardai-vos dos falsos profetas que vem a vós com vestidos de ovelhas, e dentro são lobos roubadores:

Pelos seus frutos os conhecereis. Porventura os homens colhem uvas dos espinhos, ou figos dos abrolhos?

Assim toda a árvore boa dá bons frutos: e a má árvore dá maus frutos.

Não pode a árvore boa dar maus frutos: nem a árvore má dar bons frutos[3].

Se, pois, o Espiritismo, incontestavelmente, produz bons frutos, porque dá esperança e fé; se a fé e a esperança, efetivamente, trazem os incrédulos para o grêmio da religião, é lógico, e, mais que lógico, evidente, é que o Espiritismo operando milagres sobre a consciência difunde uma doutrina benéfica, que, simultaneamente satisfaz o espírito e o coração, porque é um sistema de verdades religiosas, baseados no Evangelho que os bons espíritos, fiéis mensageiros de DEUS, nos vem confirmar; é a espada do Arcanjo, que vem derribar as árvores e os arbustos da incredulidade, confundindo, rechaçando e espavorindo os materialistas e os ateus.

O Espiritismo deve, portanto, caminhar de fronte erguida porque vem destruir erros e ao mesmo tempo derramar bálsamo consolador e vivificante nas chagas da humanidade.

III – Foi a América o ponto de partida das modernas manifestações espíritas: aí surgindo o Espiritismo na latitude setentrional, no meio de uma sociedade, fundada pelo protestantismo e tendo em seguida feito sua peregrinação por todo o continente transatlântico, implantando no coração de todos os povos o sublime e celestial preceito da caridade cristã e a crença na imortalidade e na individualidade do ser pensante depois da morte do homem, pela prova irrefragável do fato das manifestações dos espíritos, veio finalmente, quando suas feições, já bem caracterizadas, começavam a confirmar as altas verdades cristãs restabelecendo-as em toda a sua pureza e sublimidade, fechar o círculo de sua imperturbável peregrinação no mesmo continente americano; porém já na latitude meridional, no meio de uma sociedade fundada pelo Catolicismo, na Terra, providencialmente denominada da SANTA-CRUZ onde está assentado o solio archiepiscopal metropolitano da Religião do Estado, no Império do Brasil.

O dia 17 de setembro de 1865 marcará uma época feliz em nossa vida e o deverá também ser nos fastos do Espiritismo no Brasil. Foi às 11h30 da noite de 17 de setembro de 1865 que tivemos a inefável felicidade de receber a primeira comunicação espírita; tendo, depois muitas outras tido lugar em presença de amigos nossos e de pessoas notáveis por sua circunspeção e seu saber.

Católico como somos, de nascimento e de crença, do que assaz nos congratulamos, dirigindo ao Supremo Criador uma fervorosa prece, para que em nossa humildade, possamos sempre glorificar sua Infinita Bondade, não podemos ser indiferentes às feições características do Espiritismo no Brasil.

Na primeira comunicação que obtivemos, nota-se que o Espírito que se manifestou, começou por dar um testemunho não equívoco da sublimidade da Religião Católica, porquanto procurando nos verificar a identidade do Espírito que se anunciava ANJO DE DEUS, pedimos que se dignasse de ratificar o que declarara ser, jurando em nome de DEUS: esse elevado Espírito jurou, imediatamente, pelo Sagrado nome de Maria Santíssima e por DEUS Todo Poderoso, ser, efetivamente, o ANJO DE DEUS.

Diversas comunicações temos recebido e em todas elas os dogmas da nossa Santa Religião são sempre respeitados e confirmados por conselhos, explicações e até exemplos dados por modo tão singular e extraordinário que impossível é a nós referi-los; apenas podemos render o testemunho de nossa ampla convicção e inabalável crença: e à todas essas manifestações preside o ANJO DE DEUS, que de sua identidade sempre dá as mais sublimes provas.

Nas comunicações recebidas, os Espíritos costumam, ordinariamente, chamar RELIGIÃO DE DEUS; mas, pela doutrina ortodoxa que encerram, vê-se que outra não é, senão a Religião católica. Os leitores encontrarão a prova do quanto temos afirmado nos seguintes extratos de duas comunicações.

“Meus filhos, DEUS quer o coração e não quer a desobediência contra ele. Amai as Três Pessoas da SANTÍSSIMA TRINDADE que DEUS vos dará esforço para suportar os trabalhos. É preciso que façais preces à DEUS para alcançardes a Graça: Ele é infinitamente bom, não despreza os seus filhos; por isso foi que Ele padeceu tanto: e fica triste de ver seus filhos tão incrédulos e tão fora da RELIGIÃO DE DEUS.” (ANJO DE DEUS – Bahia, 1865)

“Os Espíritos maus sofrem muitos trabalhos, muita pena e vivem no maior desespero, principalmente, quando eles vêm os seus malfeitos; porque se desesperam mais: assim, meus filhos, é muito bom que vos chegueis à Deus quanto antes; não espereis pelo futuro; antes que ele chegue deveis entrar na RELIGIÃO DE DEUS: porque é perfeita saúde para o Espírito e para o corpo.” (S. João Evangelista – Bahia, 1865)

Tudo, porém, fica claro lendo-se o seguinte período de outra comunicação que já corre impressa: – “Os padres, quando vêm um incrédulo, fazem todo o possível para que ele se batize; assim também o Espiritismo faz com que todos se cheguem à RELIGIÃO CATÓLICA, que é a VERDADEIRA RELIGIÃO DE DEUS.” (ANJO DE DEUS – Bahia, 1866)

IV – Muitas são as publicações periódicas, exclusivamente consagradas à propagação das doutrinas Espíritas, que na América e na Europa têm surgido no curto período de doze anos e o Brasil não podia ser indiferente a essa marcha ascendente do espírito humano.

Há quatro anos que o Espiritismo pronunciou na Bahia sua primeira palavra e a rapidez com que ela se tem desenvolvido, apesar da indiferença de uns e dos ataques de outros, visto como, chegados os tempos de regeneração, indispensáveis se tornam as lutas supremas, bem sensível já se fazia a falta de uma publicação periódica que no Brasil também, especialmente, se ocupasse dessa nova e regeneradora doutrina.

Iniciando, pois, a publicação do ECHO D’ALÉM-TÚMULO, Monitor do Espiritismo no Brasil, não temos por fim fazer propaganda à todo o transe das ideias Espíritas; nosso intuito é estudar os fenômenos que se nos apresentam por maneira tão extraordinária, quanto admirável; e não fazendo monopólio de luzes, buscamos a imprensa para registrar todos os fatos que tiverem lugar em nossas reuniões, feitas unicamente no interesse de sermos úteis à nossos irmãos em JESUS CRISTO e para que os homens em geral, revestindo-se de boa-vontade e procurando despojar de si o espírito de controvérsia, de divisão, de egoísmos e de vaidade, possam encontrar um meio seguro de observação e de estudo.

Nessas reuniões não podem ser admitidos aqueles que somente maravilhados pelo extraordinário dos fenômenos espíritas, querem, apenas satisfazer um movimento de curiosidade, ficando, depois, tão frios e tão indiferentes como o eram dantes; são estes, segundo a parábola do Evangelho, os que recebem a semente junto da estradas: – Todo aquele que ouve a palavra do Reino e não a entende, vem o mau e arrebata o que se semeou no seu coração: este é o que recebeu a semente junto da estrada[4].

Tais homens entendem que a convicção pode-se formar fora da observação e do estudo e unicamente pela simples inspeção ocular de um ou outro fato isolado; a incredulidade virá a ter nesse modo de ver imenso campo da formular objeções: portanto ainda aqueles que desejam seriamente instruir-se, não podem logo ser admitidos em uma reunião de estudo Espíritas sem ter as primeiras noções dessa ciência; o que hoje todos podem adquirir tendo a complacência de ler, meditadamente, o opúsculo que publicamos, contendo a tradução da Introdução ao estudo da doutrina Espírita, extraída do Livro dos Espíritos, publicado por Mr. Allan Kardec, esse ilustrado e incansável propagador do Espiritismo.

Também, segundo a mais racional experiência, não podem pertencer às reuniões Espíritas pessoas que por sua incredulidade, até sistemática, possam perturba-la, trazendo a seu seio o espírito de oposição e de controvérsia: essas reuniões necessitam de homogeneidade de princípios, de comunhão de pensamentos e de respeito e veneração à Onipotência Divina para poder haver toda a calma e todo o recolhimento; circunstâncias sobremodo indispensáveis para ter-se a assistência dos bons Espíritos e destarte receberem-se úteis e sérias comunicações.

“Os Espíritos, como muito bem diz o Sr. Allan Kardec, não vem a nosso bel-prazer e menos respondem às exigências de nossa fantasia. Com os seres do mundo invisível, continua o mesmo escritor, preciso é guardar circunspecção e usar de linguagem apropriada à sua natureza, às suas qualidades morais ao grau de sua inteligência e à ordem que eles ocupam; é preciso ser enérgico ou submisso, segundo as circunstâncias; compassivo com os que sofrem, humilde e respeitoso com os superiores; firme com os maus e os obstinados que somente subjugam os, que, com complacência os escutam; é, finalmente, preciso saber formular e dirigir metodicamente as perguntas para obter respostas mais explícitas e não desprezar nas respostas obtidas certos matizes que são muitas vezes traços característicos, revelações importantes que escampam ao observador superficial, inexperiente ou transitório. A maneira de conversar com os Espíritos é, portanto, uma verdadeira arte que exige tino e conhecimento do terreno sobre o qual caminha-se; o que constitui, propriamente falando, o Espiritismo prático.

As evocações, quando dirigidas com prudência, podem ensinar importantes coisas e oferecem um poderoso elemento de interesse, moralidade e convicção: – de interesse, porque nos fazem conhecer o estado do mundo que a todos nós aguarda e de que às vezes se faz tão extravagante ideia; – de moralidade, porque podemos, por analogia, ver nelas nossa sorte futura; – de convicção, porque nessas conversações íntimas acha-se a prova manifesta da existência e da individualidade dos Espíritos.” (Revue-Spirite, 1859)

V – Demonstrado, como fica, o caráter, essencialmente moralizador do Espiritismo, fácil é concluir qual sua missão, qual nosso fim.

Sua missão resume-se em renovar a humanidade do inclinado caminho da falsa civilização, – que rápido conduz ao feio materialismo, produtor por excelência da incredulidade e do egoísmo, dois poderosos dissolventes de todo o princípio social, – fazendo-a compreender e praticar com fé, os tão sublimes e tão santos princípios do Cristianismo, únicos guias fieis que hão de levá-la à Terra da Promissão pela estrada da verdadeira civilização, grandioso predicado da perfectibilidade humana.

Nosso fim, porém, com a publicação do ECHO D’ALÉM-TÚMULO, monitor do Espiritismo no Brasil, é o cumprimento de um dever moral à que nós Espíritas nos achamos adstritos por conselho e reconhecimento de nossa própria consciência: temos fé de que hemos de consegui-lo, porque, além do concurso valiosíssimo de nossos irmãos em crença, os bons Espíritos, nossos Guias celestiais não nos faltarão com a assistência de seus sábios conselhos, dando a nós e a todos os homens de boa, -vontade – em cujos corações inda não foi extinta pelo gelado sopro do ceticismo a última centelha de esperança, – o conforto necessário para o comum desempenho da parte que à cada um couber nessa tão árdua, quão gloriosa tarefa.

LUIZ-OLIMPIO

[1] Diliges Dominum Deum tuum ex toto corde tuo, et in tota anima tua, et in tota mente tua. (S.Mt. XXII:37)

Diliges Dominum Deum tuum ex toto corde tuo, et ex tota anima tua, et ex tota fortitudine tua. (Dt VI:5)

[2] Omnia ergo quaecumque vultis ut faciant vobis homines, et vos facite illis. (S. Mt. VII:12, S. Lc VI:31)

Quod ab alio oderis fieri tibi, vide ne tu aliquando alteri facias. (Tob. IV:16)

[3] Attendite à falsis prophetis, qui veniunt ad vos in vestimentis ovium, intrinsecus autem sunt lupi rapaces:

A fructibus eorum cognoscetis eos. Numquid colligunt de spinis uvas, aut de tribulis ficus?

Sic omnis arbor bona fructus bonos facit: mala autem arbor malos fructus facit.

Non potest arbor bona malos fructus facere: neque arbor mala bonos fructus facere. (S. Mt VII:15-18)

[4] Omnis qui audit verbum regni, et non intelligit, venit malus, et rapit quod seminatum est in corde ejus: hic est qui secùs viam seminatus est. (S. Mt XIII:19)


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