Certeza da Manifestação dos bons espíritos (por Dr. Inácio José da Cunha)

Periódico: O Eco d’além-Túmulo

Salvador, Bahia – Julho de 1869, número 1, p. 20-26


… probate spiritus si ex Deo sint.

(1ª Epist. de S. João Apóstolo IV:1)

Se os Espíritos se não manifestassem e comunicação alguma deles pudessem os homens receber, o conselho do Apóstolo que nos preceitua e previne – não crer em todo o espírito, mas procurar provar, se é da parte de DEUS que são os espíritos, seria uma prevenção e um conselho inúteis, sem nenhuma vantagem, sem nenhuma aplicação à direção do homem, porque insubsistente e ilusório era o objeto, à que se dirigia: Se por outro lado, dizendo-nos o Apóstolo – nolite credere omni spiritui, sed probate si ec Deo sint – estivessem fora do alcance do homem os meios de reconhecer, se, com efeito, é de DEUS que vem o espírito, não menos inútil era o conselho, em vista da inexequibilidade de se poder distinguir e reconhecer se da parte de DEUS era, ou não, o espírito que por isso devia ser ou deixar de ser acreditado, merecer, ou não, a nossa confiança.

Logo tão real é virem os espíritos, quando haver a Providência posto ao alcance do homem os meios de distingui-los e reconhecer quais dentre eles devem merecer a sua confiança e devem ser acreditados que por isso diz o Apóstolo Evangelista: – Carissimi: nolite credere omni spiritui, sed probate spiritus si ex Deo sint.

Contudo não falta quem, principiando por duvidar que de Espírito trate o Apóstolo, apesar do tão esplêndido testemunho de sua palavra, acabe por confundir todos os espíritos que se manifestam, em uma só categoria, também a única que conhecem e em que crêm, – a dos espíritos maus. Parece-lhes isto mais fácil e cômodo do que segundo o preceito do Apóstolo – probate spiritus si ex Deo sint, verificarem a verdade que o testemunho de tantos dos seus irmãos em JESUS CRISTO lhes está a meter pelos olhos.

Não pode restar a mínima dúvida, para quem tem procurado conhecer o valor das coisas, de que, tratando o Evangelista de espírito, quisesse positiva e literalmente exprimir a individualidade inteligente – o ser pensante, – que de nós subsiste depois da destruição do corpo – isto é – o Espírito: é por sua intervenção que em todos os tempos em que isso tem tido lugar, se há exercido a profecia, verdadeira ou falsa, que por esta razão foi dito para esses como para os subsequentes tempos, – haverá falsos profetas – distingui os verdadeiros dos falsos – provai se é de DEUS que são os espíritos, – porque o exercício da profecia, nos seus diferentes gêneros, nunca teve lugar sem a intervenção do espírito e sua comunicação fosse qual fosse o modo, porque ela se desse, com aquele que DEUS queria ou permitia e tinha em mais alto grau qualidades que ELE com todos mais ou menos repartira.

É assim que se lê no NUMERUS… “e tendo neles repousado o Espírito, profetizarão e não cessarão de o fazer.

– Haviam, porém ficado no campo dos Varões, um dos quais se chamava Eldad e o outro Medad sobre os quais repousou o Espírito… E como profetizavam no campo, veio correndo um moço e deu por notícia a Moisés dizendo: Eldad e Medad profetizam no campo.

Então Josué, filho de Nun, ministro de Moisés e escolhido entre muitos, disse: Meu senhor Moisés, proíbe-lho.

Moisés lhe respondeu: Que zelos são estes que mostras por mim? Quem dera que todo o povo profetizasse e que o Senhor lhe desse o seu Espírito?” (NUMERUS XI – 25 a 29)

Como se vê, o fato de profetar se acha sempre ligado à dar DEUS do seu Espírito – à permitir que o – Espírito – repouse sobre quem tinha ELE permitido profetar, – e esse profetar, que, entre os Hebreus, era o mesmo que falar o SENHOR por seus servos, tão extensamente se exercia nesses tempos que no precitado NUMERUS falando de Maria e Arão que murmuravam de Moisés por causa de Ethiopiza, mulher deste, se lê:

“Por ventura falou o Senhor só por Moisés? Não nos falou ele também a nós?

O que tendo Senhor ouvido, lhes disse: Ouvi as minhas palavras: se entre vós se achar algum profeta do Senhor, eu lhe aparecerei em visão ou lhe falarei em sonhos; mas não é assim a respeito de meu servo Moisés que é o mais fiel em toda a minha casa.

Porque eu lhe falo cara a cara e ele vê claramente o Senhor e não debaixo de enigmas ou de figuras.” (NUMERUS XII – 2, 6, 7 e 8)

E com efeito a Moisés se manifestava DEUS, por SEU ENVIADO, pessoalmente e face a face, que por isso se lê: – “e ele claramente vê o Senhor.” – (NUMERUS XII – 8) “Eu lhe falo cara a cara – ora o Senhor falava à Moisés face a face, bem como um homem costuma falar ao seu amigo.” (EXODO XXXIII – 11)

E também:

“Disse-lhe mais o Senhor: Tu não poderás ver o meu rosto, porque nenhum homem me verá sem morrer.” (EXODO XXXIII – 20)

Finalmente, é ainda no sentido literal e próprio de – espírito – que se lê:

“ – Os espíritos dos Profetas estão sujeitos aos Profetas.” (1ª EPIST. de S. PAULO aos Corinth. XIV – 32)

O que ainda mais claro fica quando se lê a ordem que refere S. Pedro haver recebido de um Espírito para que acompanhasse os três homens, que de Cesaréa, por parte do Centurião Cornélio, o tinham vindo buscar em Jope:

“ – E o Espírito me disse fosse eu com eles, sem por a isso alguma dúvida.” (ATO DOS APOSTOLOS XI -12)

O caso do Centurião que enviara ao Apóstolo S. Pedro os três homens, a respeito dos quais o advertira o Espírito que se lhe manifestara, vem descrito na seguinte interessantíssima narrativa:

– Havia, pois, em Cesaréa um homem por nome Cornélio, que era Centurião da Coorte, que se chama Italiana.

– Cheio de religião e temente a Deus com toda a sua casa, que fazia muitas esmolas ao povo e que estava orando a Deus constantemente.

– Este viu em visão manifestamente, quase à hora de noa, que o Anjo de Deus se apresentava diante dele e lhe dizia:

Cornélio:

– E ele fixando nele os olhos, possuído de temos, disse: Que é isto Senhor?

– Ele, porém lhe respondeu: as tuas orações e as tuas esmolas subirão para ficarem em lembrança na presença de DEUS.

– Envia, pois, homens a Jope e faze vir aqui a um certo Simão que tem sobrenome Pedro:

– Este se acha hospedado em casa de um certo Simão, curtidor de peles, cuja casa fica junto ao mar: ele dirá o que convém fazer.

– E logo que se retirou o Anjo que lhe falava, chamou a dois dos seus domésticos e a um soldado temente a Deus, daqueles que estavam às suas ordens:

– E havendo-lhes contado tudo isto, os enviou a Jope. (ATOS DOS APOSTOLOS X – 1 a 8)

É, pois, evidente que de espírito, no rigor da expressão, é que nos fala o Evangelista Apóstolo S. João; mas como a nunca interrompida comunicação dos espíritos com os homens, – o, que  constitui, naturalmente, uma Lei sabia e providencial que preside as relações constantes entre o mundos dos homens e o mundo dos espíritos, se torna às vezes manifesta, segundo o julga DEUS necessário, vindo assim a pôr-se em relação direta com o homem espíritos de todas as ordens que destarte lhe transmitem ensinos que não podem ser sempre os mesmos ou porque diverso é o grau de superioridade e inferioridade dos espíritos donde provem tais ensinos ou porque só a PROVIDÊNCIA tem em sua alta sabedoria a medida da oportunidade e do tempo de revelar à humanidade verdades que até então ocultara, mister era possuírem-se os meios de ser aferida a confiança, que nos deviam, na aceitação desses ensinos, inspirar ou merecer os espíritos que no-los trouxessem e o Apóstolo Evangelista, que em sua solicitude, sabiamente nos instiga à uma prudente reserva à uma cautelosa desconfiança, faz-nos ao mesmo tempo aparecer irradiante a luz desses meios: é ele, que, por assim dizer, acendo o farol do preceito que nos pode guiar os duvidosos passos no reconhecimento do Espírito, que é de DEUS:

– “nisto se conhece,” diz ele, “o espírito que é de DEUS: todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de DEUS” (Epist. de S. JOÃO APOSTOLO IV- 2)

E, certamente, nenhum espírito que é de DEUS, diz coisa que contraria seja ao que de Jesus Cristo e de sua doutrina nos ensinaram os Evangelistas e os Apóstolos, e esse, certamente, confessa que o Verbo encarnou, – que Jesus Cristo é Deus, que a sua doutrina é santa, e, confessando-a, dá testemunho.

Se, pois, vemos os espíritos que se manifestam dando irrefragável e perene testemunho à DIVINDADE do Salvador e Redentor do mundo, – do filho Unigênito de DEUS; ao mistério inefável e sacrossanto da SS. Trindade; ensinando, doutrinando, convocando à unidade e unificação desta crença, à prática do amor de DEUS e da caridade como ensinava o DIVINO MESTRE; se os seus ensinos em nada diferem daqueles que em sua missão divina nos transmitiram os servos que de modo visível os precederam no serviço do Senhor – os Apóstolos e Discípulos de Nosso Senhor JESUS CRISTO, – que dúvida pode haver de que a sua missão é igualmente divina e da parte de DEUS são os espíritos que se manifestam?

Eis, ao mesmo tempo, o critério com que facilmente distinguir-se-á  a verdade do erro – eis o sinal certo e evidente de que de DEUS são os Espíritos, que vem numa missão altamente divina, soberanamente providencial – chamar nestes últimos tempos, para – “o regaço da Religião todos aqueles que estiverem apartados dela.” (Manifestação do ANJO DE DEUS, publicada na Introdução ao Estudo da Doutrina Espirítica, traduzida do francês pelo Sr. Luiz Olympio Teles de Menezes)

E se a dúvida, tenaz e obstinada, prevalecesse à despeito daquilo mesmo que nos preceitua o Apóstolo; – se recalcitrasse insistindo que são maus os espíritos que se manifestam e ensinam a boa doutrina, neste caso Satanás estaria dividido contra si mesmo; porque é o DIVINO MESTRE quem diz: – “Todo reino dividido contra si mesmo será desolado: e toda a cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá.

Ora (continua o Divino Mestre) se Satanás lança fora Satanás, está ele dividido contra si mesmo: como persistirá logo o seu reino?”(S. MATHEOS  XII – 25 e 26)

E se a boa doutrina, se a palavra de salvação e de vida é pregada e praticada por maus espíritos, cabe ainda repetir o que, igualmente, nestes termos perguntava JESUS CRISTO aos Fariseus: “E se eu lanço fora os demônios em virtude de Belsebú, em virtude de quem os expelem os vossos filhos?” (S. MATH. XII – 28)

“Ou fazei a árvore boa (continua o Salvador) e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má e seu fruto mau; pois que pelo fruto é que a árvore se conhece.” (S. MATHEOS XII – 32)

“Não pode a árvore boa dar maus frutos, nem a árvore má dar bons frutos.” (S. MATH. VII – 17-18)

Em vista disto, debalde, – filhos do regresso, que preferem tatear na sombra de erros deploráveis a acostumar os olhos à luz que os deslumbra, – os inimigos da nova revelação se esforçarão por plantar nos ânimos nimiamente crédulos a dúvida e o preconceito de que são chegados os tempos do reinado do anticristo e que são anticristos os mensageiros invisíveis da palavra divina.

As santas Escrituras estão a protestar, em nome d’Aquele que as inspirara, como o fanal que em todos os tempos e até a consumação dos séculos, há de guiar a humanidade ao ponto do seu destino, contra a impiedade de semelhantes asserções; sem, elas aí estão vivamente a declarar: – Pelos seus frutos os conhecereis. (S. MATH. VII – 16)

A ninguém o mentiroso engana e… “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus seja o Cristo?” pergunta o Apóstolo. “Este tal é um anticristo que nega o Pai e o Filho.” (Epist. de S. JOÃO APOST. II – 22)

Se fossem anticristos os que de novo vos vem anunciar o reino de DEUS, vê-los-eis compreendidos na palavra, que diz: “e todo o espírito que divide a Jesus não é de DEUS, “mas esse tal é o anticristo, do qual vós tendes ouvido que vem e ele agora está já no mundo.” (Epist. de S. JOÃO APOST. IV – 3)

Se é do anticristo predito que vos receais, – os tempos estão assinalados, – e salientes são por demais os seus caracteres:

“O anticristo há de vir pouco tempo antes do fim do mundo e só depois que o Evangelho houver sido anunciado a todos os povos da terra.” (CATECISMO impresso por ordem do Bispo de Montpellier, Carlos Joaquim Colbert e traduzido para o português: – Lisboa, 1770)

Desejaríamos que nos dissessem se já nos achamos no fim do mundo. Se também o Evangelho tem já sido anunciado a todos os povos da terra, não o afirmamos; o que sabemos é que grande porção da humanidade o não conhece e só uma fração diminuta pertence à Igreja Católica:

“O anticristo será um homem muito poderoso, muito mau, oposto a todo o bem, e, principalmente, a Jesus Cristo.” (CATECISMO citado p. 415)

Os Espíritos não são homens, e menos um homem, não ostente poder seu, que todo o atribuem a DEUS; – não são maus, ao invés chamam para a prática do bem; nem opostos à JESUS CRISTO porque de sua Divindade dão perenes e incessantes testemunhos.

Finalmente, diz o precitado CATECISMO: – “A perseguição do anticristo não será muito dilatada. A sagrada Escritura dá a entender que não durará mais que três anos e meio.”

Entretanto mais de quinze anos há que por modo providencial, se dá, nos diversos pontos da terra a manifestação dos Espíritos.

Não soçobrará, pois, a humanidade à falta dos meios de distinguir o bem do mal, a verdade do erro, os Espíritos, que em missão divina concorrem para obra da regeneração – daqueles outros que com eles nunca se hão de confundir; porque, se a alguns Satanás pode parecer Anjo de Luz, – inculca-se – não transforma-se; a verdade é esta; procurem-na que hão de encontra-la. A luz é por sua essência luz, inalterável e sempre a mesma: – “da verdade não vem nenhuma mentira, diz o Apóstolo.” (Epist. de S. JOÃO APOSTOLO II – 21)

O que vos cumpre, unicamente, fazer é seguir o conselho do Apóstolo – probate spiritus, e haveis de acertar porque para este fim vos é igualmente dito: – In hoc cognoscitur spiritus Dei: omnis spiritus qui confitetur Jesum Christum in carne venisse ex Deo est.

Dr. Ignácio José da Cunha


PARA VER O DOCUMENTO ORIGINAL DIGITALIZADO, CLIQUE AQUI


NOTA DO ARQUIVO ESPÍRITA: A imagem no início da página – a escultura de um anjo – é apenas ilustrativa e, evidentemente, não faz parte do documento original.


Caso tenha algum documento antigo que tenha relação com o espiritismo, por favor entre em contato conosco pelo e-mail arquivoespirita@gmx.com , ou por nossa página no Facebook.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *