Classificação das diversas naturezas de manifestações e comunicações (da Revue Spirite de janeiro de 1858)

Periódico: O Eco d’além-Túmulo

Salvador, Bahia – Julho de 1869, número 1, p. 26-30


REVUE SPIRITE, Janeiro de 1858

Os Espíritos atestam sua presença de diferentes modos, segundo a aptidão, vontade e maior ou menor grau de elevação que possuem. Todos os fenômenos de manifestação referem-se, naturalmente, a qualquer desses modos de comunicação.

Para facilitar a inteligência dos fatos apresentamos as diferentes naturezas de manifestações que se resumem em seis categorias:

1ª – Ação oculta, quando nada apresenta de ostensivo; tais são, por exemplo: – as inspirações, as sugestões de pensamentos, os aviso íntimos, a influência sobre os sucessos, etc.;

2ª – Ação patente ou manifestação, quando de algum modo é ela apreciável;

3ª – Manifestações físicas ou materiais, quando se traduzem por fenômenos sensíveis; tais como pancadas, movimento e deslocamento de objetos. Essas manifestações muitas vezes não comportam sentido algum direto; têm unicamente, por fim chamar nossa atenção sobre alguma coisa e convencer-nos da presença de uma potência superior ao homem;

4ª – Manifestações visuais ou aparição, quando o Espírito se produz à vista debaixo de uma forma qualquer, sem nada ter das propriedades conhecidas da matéria;

5ª – Manifestações inteligentes, quando revelam um pensamento. Toda a manifestação que comporta um sentido, seja embora um simples movimento ou pancada, acuse uma certa liberdade de ação, corresponda à um pensamento ou obedeça à uma vontade, é uma manifestação inteligente: e as há de todos os graus;

6ª – As comunicações propriamente ditas, que são as manifestações inteligentes, têm por objeto uma troca mantida de pensamentos entre os homens e os Espíritos.

A natureza das comunicações varia segundo o grau de elevação ou de inferioridade de saber ou de ignorância do Espírito que se manifesta e segundo a natureza do assunto de que se trata. Elas podem ser: – frívolas, grosseiras, sérias ou instrutivas.

As comunicações frívolas emanam de Espíritos levianos, zombeteiros e astuciosos, mais malignos que maus, que nenhuma importância ligam ao que dizem.

As comunicações grosseiras traduzem-se por expressões que ofendem o decoro. Emanam sempre de Espíritos inferiores ou que ainda não despojaram todas as impurezas da matéria.

As comunicações sérias são graves, quanto ao assunto e o modo porque elas são feitas. A linguagem dos Espíritos superiores é sempre digna e isenta de toda a trivialidade. Qualquer comunicação que exclua a frivolidade e a grosseria tendo um fim de utilidade, ainda sendo de interesse particular, é por isso mesmo séria.

As comunicações instrutivas são as comunicações sérias que têm por objeto principal um ensino qualquer dado pelos Espíritos sobre as ciências, a moral, a filosofia, etc. Elas são mais ou menos profundas e encerram mais ou menos verdade segundo o grau de elevação e de desmaterialização do Espírito.

Para dessas comunicações colher fruto real preciso é que sejam elas regulares e mantidas com perseverança. Os Espíritos sérios inclinam-se aos que querem instruir-se e os ajudam enquanto que deixam aos espíritos levianos o cuidado de divertir com facécias aqueles que nestas manifestações somente vêm uma distração passageira. Pela regularidade e pela frequência das comunicações é que se pode apreciar o valor moral e intelectual dos Espíritos com os quais se entra em relações e o grau de confiança que merecem.

Se a experiência é necessária para julgar os homens, mais necessária ainda se torna para julgar os Espíritos.

As comunicações inteligentes entre os Espíritos e os homens podem efetuar-se pelos sinais, pela escritura e pela palavra.

Os sinais consistem no movimento significativo de certos objetos e o mais das vezes em ruídos e pancadas. Quando esses fenômenos comportam um sentido, não é permitido duvidar da intervenção de uma inteligência oculta pela razão de que se todo o efeito tem uma causa, todo o efeito inteligente deve ter uma causa inteligente.

Sob a influência de certas pessoas designadas com o nome de médiuns, e algumas vezes espontaneamente, um objeto qualquer pode executar movimentos de convenção, bater um número determinado de pancadas e assim transmitir respostas por sim e por não ou pela designação das letras do alfabeto.

As pancadas podem também ser ouvidas sem nenhum movimento aparente e sem causa ostensiva, quer na superfície, quer no próprio tecido dos corpos inertes numa parede, numa pedra, num móvel ou em qualquer outro objeto. A comunicação por sinais tem o nome de sematologia e por pancadas, o de tiptologia.

O segundo modo de comunicação é pela escritura, a qual se denomina psicografia.

Para a comunicação pela escrita, os Espíritos empregam como intermediários, certas pessoas dotadas da faculdade de escrever sob a influência da potência oculta que as dirige e que cedem a um poder evidentemente fora de sua verificação porque elas não podem nem parar, nem progredir à vontade e o mais das vezes não tendo consciência daquilo que escrevem. A mão é agitada por um movimento involuntário quase febril; tomam o lápis independente de sua vontade e do mesmo modo o deixam; nem a vontade, nem o desejo podem fazê-las caminhar se o não devem. – É a psicografia direta.

A escrita obtém-se também pela simples imposição das mãos sobre um objeto convinhavelmente disposto e munido de um lápis ou de qualquer outro instrumento próprio de escrever. Os objetos mais geralmente empregados são pranchinhas ou cestinhas dispostas para esse efeito. A potência oculta que obra sobre a pessoa, transmite-se ao objeto que destarte torna-se um apêndice da mão e imprime-lhe o movimento necessário para traçar caracteres. – É a psicografia indireta.

As comunicações transmitidas pela psicografia são mais ou menos extensas segundo o grau da faculdade mediadora. Uns apenas obtêm palavras; outros, porém, desenvolvida a faculdade pelo exercício, escrevem frases completas e muitas vezes dissertações desenvolvidas sobre assuntos propostos ou tratados espontaneamente pelos Espíritos sem pergunta prévia.

A escrita é algumas vezes clara e assaz legível; outras vezes só é decifrável por quem escreveu que então a lê por uma espécie de intuição ou vista dupla.

Com a mesma pessoa a escrita muda completamente, em geral, com a inteligência oculta que se manifesta e o mesmo caráter de escrita reproduz-se toda a vez que a mesma inteligência de novo se manifesta: esse fato, porém, nada tem de absoluto.

Algumas vezes os Espíritos transmitem certas comunicações escritas sem intermediário direto. Os caracteres, são em tal caso, traçados espontaneamente por uma potência extra-humana, visível ou invisível. E como útil é que cada coisa tenha um nome a fim de ser conhecida, chamou-se a princípio espiritografia e depois pneumatografia para distingui-la da psicografia ou escrita obtida por um médium. A diferença destas duas palavras fácil é de compreender. Na psicografia a alma do médium representa, necessariamente, um certo papel, pelo menos como intermediário, enquanto que na espiritografia ou pneumatografia é o Espírito que por si mesmo obra diretamente.

O terceiro modo de comunicação é a palavra. Certas pessoas experimentam nos órgãos da voz a influência do poder oculto que se faz sentir na mão daquelas que escrevem. Transmitem, pela palavra, tudo quanto outros transmitem pela escrita.

As comunicações verbais, como as escritas, algumas vezes se dão sem intermediário corporal. Palavras e frases podem repercutir a nossos ouvidos ou em nosso cérebro sem causa física aparente: Espíritos podem, igualmente, aparecer-nos em sonhos ou em vigília e dirigir-nos a palavra para dar-nos avisou ou instruções.

Seguindo o mesmo sistema de nomenclatura adotada para as comunicações escritas, deveria chamar-se a palavra transmitida pelo médium psicologia e a procedente diretamente do Espírito espiritologia: mas tendo a palavra psicologia uma acepção conhecida, impossível é ser dela desviada. Designar-se-á todas as comunicações verbais transmitidas por médiuns com o nome de espiritologia e as que forem dadas diretamente pelos Espíritos quer em sonhos, quer em vigília, com o nome de pneumatologia.

Dentre os diversos modos de comunicação a sematologia e a tipologia são os mais incompletos, demasiado lentos e só dificilmente prestam-se a desenvolvimentos de uma certa extensão. Os Espíritos superiores não se servem desses meios de boa-vontade, já pela lentidão, já porque as respostas por sim e não são incompletas e sujeitas a erro; os meios mais prontos são os preferidos: – a escritura e a palavra.

A escritura e a palavra são, efetivamente, os meios mais completos para a transmissão do pensamento dos Espíritos, pela precisão das respostas e pelo desenvolvimento que comportam. A escritura tem a vantagem de deixar traços materiais e ser um dos meios mais próprios para combater a dúvida. Em suma, não se tem a liberdade de escolher; os Espíritos comunicam-se pelos meios que julgam oportunos, dependendo também isso das aptidões.


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