O que ensina o espiritismo (1865)

Periódico: O Eco d’além-Túmulo

Salvador, Bahia – Julho de 1869, número 1, p. 49-55


(REVUE SPIRITE, Paris, 1865 – 8º ano)

Há quem pergunte quais são as conquistas novas que devemos ao Espiritismo. Porque não dotou o mundo com uma nova indústria produtiva como o vapor, concluem que nada tem produzido. A maior parte dos que assim entendem, não se tendo dado ao trabalho de estudá-lo, somente conhecem o Espiritismo de fantasia criado para as necessidades da crítica e que nada tem de comum com o Espiritismo sério; não é, pois, de admirar que eles perguntem qual pode ser seu lado útil e prático. Tê-lo-iam sabido se o fossem procurar em sua origem e não nas caricaturas que hão feito dele os interessados em denegri-lo.

Em uma outra ordem de ideias acham alguns, pelo contrário, ao sabor de sua impaciência, que a marcha do Espiritismo é demasiado lenta; admiram-se que não haja ainda sondado todos os mistérios da natureza, nem tocado todas as questões que parecem ser de sua alçada; queriam vê-lo ensinar quotidianamente novas coisas ou enriquecer-se de alguma nova descoberta; e porque ainda não resolveu a questão da origem dos seres, do princípio e fim de todas as coisas, da essência divina e mais algumas do mesmo alcance, concluem que não saiu do alfabeto, que não há entrado no verdadeiro caminho filosófico e que se arrasta por lugares comuns porque incessantemente prega a humildade e a caridade.

“Até o presente, dizem eles, nada de novo nos tem ele ensinado porque a reencarnação, a negação das penas eternas, a imortalidade da alma, a gradação através dos períodos da vitalidade intelectual, o perispírito, não são descobertas espiríticas, propriamente ditas; preciso é, pois, caminhar à descobertas mais verdadeiras e mais sólidas.”

A este respeito entendemos ser nosso dever apresentar algumas observações que não serão absolutamente novas, mas coisas há que útil é repetir sob diversas formas.

O Espiritismo, é verdade, nada tem inventado de tudo isto porque não há verdadeiras verdades, se não as que são eternas e por isso mesmo têm elas podido germinar em todas as épocas; mas – nada é tê-las tirado, se não do nada, pelo menos do esquecimento; de um gérmen ter feito uma planta vivace; de uma ideia individual, perdida na noite dos tempos ou sufocada pelos preconceitos, ter feito uma crença geral; ter provado o que era no estado de hipótese; ter demonstrado a existência de uma lei no que parecia excepcional e fortuito; de uma teoria vaga ter feito uma coisa prática; de uma ideia improdutiva ter tirado aplicações úteis? Bem verdadeiro é o provérbio: “Nada é novo debaixo do Sol”; e nem essa verdade em si é nova; também não é uma descoberta, cujo princípio e vestígios não se achem em parte alguma. À vista disso Copérnico não teria o mérito de seu sistema porque o movimento da terra tinha sido suspeitado antes da era cristã. Era coisa muito simples, mas era preciso achá-la. A história do ovo de Cristóvão Colombo será sempre uma eterna verdade.

É  além disso incontestável que o Espiritismo tem muito ainda quer ensinar-nos; é o que não temos deixado de repetir porque não temos nunca pretendido que haja ele dito sua última palavra. E desde que ainda resta que fazer, segue-se que não tenha saído do alfabeto? As mesas girantes foram o seu alfabeto e desde então parece-nos que alguns passos há ele dado; parece-nos até que os há dado bem grandes em poucos anos, se compararmo-lo às outras ciências que têm gasto séculos para chegar ao ponto em que estão. Nenhuma tem chegado ao seu apogeu ao primeiro impulso; progridem não pela vontade dos homens, mas à proporção que as circunstâncias apresentam novas descobertas; não está, pois, no poder de ninguém comandar essas circunstâncias e a prova disso é que todas as vezes que uma ideia é prematura, aborta para mais tarde oportunamente reaparecer.

E porque faltam novas descobertas, os homens da ciência nada tem que fazer? A química não é mais química, se não descobrir todos os dias novos corpos? Os astrônomos estão condenados a cruzar os braços por não acharem novos planetas? E assim acerca de todos os outros ramos das ciências e da indústria. Deve-se fazer aplicação do que se sabe antes de procurar novidades.

É precisamente para dar aos homens tempo de assimilar-se, de aplicar e vulgarizar o, que sabem, que a Providência faz uma parada na marcha ascendente das ideias. A história aí está para nos mostrar que as ciências não seguem uma marcha ascendente contínua, pelo menos ostensivamente; os grandes movimentos que revolucionam uma ideia, não se operam senão com intervalos mais ou menos longos. Não há por isso estagnação, mas elaboração, aplicação e frutificação daquilo que se sabe, o que é sempre progresso. Poderia o Espírito humano, continuamente, absorver novas ideias? A própria terra não necessita de algum repouso antes de reproduzir? O que se diria de um professor que todos os dias ensinasse novas regras à seus discípulos sem lhes dar tempo de exercitarem-se naquelas que aprenderam, de identificarem-se com elas e de aplicá-las? Seria então DEUS menos previdente e menos hábil que um professor? Em todas as coisas devem as ideias novas assentar-se nas ideias adquiridas; se estas não estão suficientemente elaboradas e consolidadas no cérebro, se o Espírito não nas tem assimilado à si aquelas que ali se querem implantar não tomam raiz: semeia-se no vazio.

O mesmo acontece com o Espiritismo. Têm os adeptos de tal modo aproveitado o que até hoje tem ele ensinado que não lhes reste nada mais que fazer? Estão eles, assaz caritativos, desprovidos de orgulho, desinteressados, benevolentes para com seus semelhantes; – hão moderado assaz suas paixões, abjurado o ódio, a inveja e o ciúme; – estão enfim tão perfeitos que de ora avante seja supérfluo pregar-lhes a caridade, a humildade, a abnegação, em uma palavra, a moral? Essa pretensão por si só provaria quando ainda necessitam dessas lições elementares que alguns acham fastidiosas e pueris; e, todavia é só à custa dessas instruções, se as souberem aproveitar que podem elevar-se bastante para serem dignos de receber um ensino superior.

O Espiritismo tende à regeneração da humanidade; é isto um fato de experiência; entretanto, não podendo essa regeneração operar-se senão pelo progresso moral, resulta daí que seu fim essencial e providencial é o melhoramento de cada um: os mistérios que pode ele revelar-nos são o acessório porque, abrisse-nos ele o santuário de todos os conhecimentos, não nos tornaríamos mais adiantados para nosso estado futuro, se nos não tornamos melhores. Para a admissão ao banquete da suprema felicidade. DEUS não pergunta o que se sabem, nem o que se possui; mas o que se vale e o que se tiver feito de bom: é, pois, em seu melhoramento individual que todo o Espírita sincero antes de tudo deve trabalhar. Só aquele que há domado suas más inclinações tem, realmente, aproveitado do Espiritismo e disso receberá a recompensa; é por isso que os bons Espíritos, por ordem de DEUS, multiplicam suas instruções e repetem-nas até a saciedade; somente um orgulho insensato pode dizer: -“Não necessito mais disso.” Só DEUS sabe quando elas serão inúteis e a Ele só pertence dirigir o ensino de seus mensageiros e de proporcioná-lo a nosso adiantamento.

Vejamos, portanto, se fora do ensino puramente moral, são os resultados do Espiritismo tão estéreis como alguns o pretendem.

1º – Dá incontinente, como cada um o sabe, a prova patente da existência e da imortalidade da alma. Não é isso uma descoberta, é verdade, mas por falta de provas sobre esse ponto é que há tantos incrédulos e indiferentes sobre o futuro; é provando aquilo que não passava de uma teoria que ele triunfa do materialismo e que previne suas funestas consequências para a sociedade. Sendo mudada em certeza a dúvida sobre o futuro, uma completa revolução opera-se nas ideias e incalculáveis são as suas consequências. Se a isso se limitasse, exclusivamente, o resultado das manifestações, já esse resultado seria imenso.

2º – Pela firme crença que desenvolve, exerce ele uma poderosa ação sobre o moral do homem; conduz ao bem, consola-o em suas aflições, dá-lhe a força e a coragem nas provanças da vida e o desvia do pensamento do suicídio.

3º – Retifica todas as ideias falsas que existiam feitas sobre o futuro da alma, sobre o Céu, o inferno, as penas e as recompensas; destrói, radicalmente, pela irresistível lógica dos fatos, os pretendidos dogmas das penas eternas e dos demônios; em suma descobre-nos a vida futura e no-la mostra racional e conforme a justiça de DEUS. É ainda uma coisa que tem, realmente, seu valor.

4º – Faz conhecer o que se passa na hora da morte; esse fenômeno até hoje insondável, não tem mais mistérios; as menores particularidades dessa passagem tão temida são hoje conhecidos; e como todos morrem, esse conhecimento interessa à todos.

5º – Pela lei da pluralidade das existências, abre ele um novo campo à filosofia; o homem sabe donde vem, aonde vai e para que fim está na terra. Explica a causa de todas as misérias humanas, de todas as desigualdades sociais; dá as próprias leis da natureza por base aos princípios de solidariedade universal, de fraternidade, de igualdade e de liberdade que somente se assentavam na teoria; finalmente derrama luz sobre as questões mais árduas da metafísica, da psicologia e da moral.

6º – Pela teoria dos fluidos perispirituais faz conhecer o mecanismo das sensações e das percepções da alma; explica os fenômenos da dupla vista, em distância, do sonambulismo do êxtase, dos sonhos, das visões, das aparições, etc.; abre um novo campo à psicologia e à patologia.

7º – Provando as relações que existem entre o mundo corporal e o mundo espiritual, mostra neste último, uma das forças ativas da natureza, uma potência inteligente e dá a razão de multiplicados efeitos atribuídos a causas sobrenaturais e que têm alimentado a maior parte das ideias supersticiosas.

8º – Revelando o fato das obsessões, faz conhecer a causa, até aqui desconhecida, de numerosas afecções sobre que a ciência equivocava-se em prejuízo dos doentes e dá os meios de curar.

9º – Fazendo-nos conhecer as verdadeiras condições da oração e seu modo de ação, revelando-nos a influência recíproca dos Espíritos encarnados e desencarnados, ensina-nos o poder do homem sobre os Espíritos imperfeitos para moralizá-los e arrancá-los aos sofrimentos inerentes à sua inferioridade.

10º – Fazendo conhecer a magnetização espiritual, que não se conhecia, abre ao magnetismo uma nova vereda, trazendo-lhe um novo e poderoso elemento de cura.

O mérito de uma invenção não está na descoberta de um princípio, quase sempre conhecido anteriormente, mas na aplicação desse princípio. A reencarnação não é uma ideia nova, é tão indubitável como o perispírito descrito por S. Paulo debaixo do nome de corpo espiritual e nem também é nova a comunicação com os Espíritos. O Espiritismo que não se lisonjeia de ter descoberto a natureza, indaga cuidadosamente todos os traços que encontrar pode da anterioridade de suas ideias e quando as acha, apressa-se em proclamá-la como prova em apoio do que propõe. Os, que, portanto, invocam essa anterioridade no intuito de depreciar aquilo que o Espiritismo há feito, vão contra o que têm em mira, portam-se desasadamente porque isso poderia fazer suspeitar uma segunda tenção.

A descoberta da reencarnação e do perispírito não pertencem, pois, ao Espiritismo, é coisa sabida; mas até ele, – que proveito a ciência, a moral, a religião auferiram desses dois princípios, ignorados do vulgo e deixados no estado de letra morta? Não só os tem ele posto à luz, não só os tem provado e feito reconhecer como leis da natureza, senão também os desenvolvido e feito frutificar; deles há feito sair inumeráveis e fecundos resultados, sem os quais se estaria ainda por compreender uma infinidade de coisas; fazem-nos quotidianamente compreender novas e longe se está de haver esgotado essa mina. Por que, pois, sendo já conhecidos esses dois princípios ficaram, entretanto, improdutivos? – Por que durante tantos séculos todas as filosofias têm-se esbarrado contra tantos problemas insolúveis? É porque eram diamantes brutos que convinha empregar: foi – o, que fez o Espiritismo. Abriu um novo caminho à filosofia, ou, para melhor dizer, criou uma nova filosofia que de dia em dia toma assento no mundo. Tais resultados são tão nulos que seja preciso ter pressa em caminhar à descobertas mais verdadeiras e mais sólidas?

Em suma, um certo número de verdades fundamentais traçadas por algumas inteligências escolhidas e que ficara para a maioria em um estado, por assim dizer, latente, uma vez que têm sido elas estudadas, elaboradas e provadas, de estéreis que eram, tornaram-se uma fecunda mina donde saíram uma multidão de princípios secundários e de aplicações, abrindo um vasto campo à exploração e novos horizontes às ciências, à filosofia, à moral, à religião e à economia social.

Tais são até hoje as principais conquistas devidas ao Espiritismo; e, entretanto, temos apenas indicado os pontos culminantes. Supondo que devessem elas limitar-se a isto, já nos poderíamos dar por satisfeito e dizer que uma ciência nova que em menos de dez anos dá tais resultados, não está eivada de nulidade, porque toca em todas as questões vitais da humanidade e porque traz aos conhecimentos humanos um contingente que não é para desprezar.

Até que esses únicos pontos hajam recebido todas as aplicações, de que são susceptíveis, e que os homens deles se tenham aproveitado, muito tempo ainda decorrerá e de que ocupar-se não faltará aos Espíritas que quiserem pô-los em prática para si próprios e para o bem de todos.

Esses pontos são outros tantos focos donde irradiam-se inumeráveis verdades secundárias que trata-se de desenvolver e aplicar o que cada dia se faz; porque cada dia revelam-se fatos que levantam uma nova ponta do véu. O Espiritismo tem, sucessivamente e em alguns anos, dado todas as bases fundamentais do novo edifício a seus adeptos, cumpre agora empregar esses materiais antes de exigir novos; DEUS saberá fornecê-los exatamente, quando tiverem terminado sua tarefa.

Dizem que os Espíritas sabem apenas o alfabeto do Espiritismo; seja assim:  aprendamos, pois, primeiro à soletrar esse alfabeto, o que não é tarefa de um dia porque reduzida mesmo a essas únicas proporções, gastar-se-á tempo antes de esgotarem-se todas as combinações e recoltado todos os frutos. Não restam mais fatos para explicar? Não têm os Espíritas, além disso, de ensinar esse alfabeto aos que não no sabem? Têm eles semeado por toda parte, em que o teriam podido fazer? Não resta mais incrédulos a converter, obsessos a curar, consolações a dar e lágrimas a enxugar? Por ventura pode-se dizer que não há mais nada que fazer, quando não acabou sua tarefa, quando ainda restam tantas chagas por cicatrizar? Eis aí nobres ocupações que valem bem a vã satisfação de saber um pouco mais e um pouco antes do que os outros.

Saibamos, portanto, soletrar nosso alfabeto antes de querer ler correntemente no grande livro da natureza; DEUS saberá no-lo abrir exatamente à medida que nos adiantarmos, mas de nenhum mortal depende forçar SUA vontade antecipando o tempo devido para cada coisa. – Se a árvore da ciência é muito alta para que possamos atingi-la, esperemos que nossas asas tenham crescido e estejam, solidamente, fixadas, para voando a ela, não virmos a ter a sorte de Ícaro.


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