“A Educação”, por Antônio de Aquino (espírito)

 

Periódico: Novo Horizonte

Rio de Janeiro, n.1, Janeiro de 1932


A EDUCAÇÃO

Noite de 07/10/1931

Que o amor único de Deus inspire todas as almas para o bem. Antônio de Aquino

Há uma necessidade imperiosa entre os homens, necessidade que exige de todos um trabalho intensivo: é o da educação. Precisamos educar. O termo não é restrito. Educar não significa apenas orientar as crianças, dar boa forma de viver e encaminhar para a vida social. É erro, e erro muito importante, o de os homens suporem que a educação é apenas o trabalho que visa a preparação da criança para a sociedade. É muito incompleta essa concepção. É preciso ir mais além. A educação é o trabalho dos mais experimentados sobre os menos experimentados. A educação é o esforço do encaminhamento em todos os planos da atividade, para todos os homens desencaminhados. É claro que as crianças, por isso que são espíritos no início da encarnação, necessitam de um amparo educativo mais sistemático, mais frequente, mais lógico.

Mas também existem entre os homens aqueles que, por estarem desorientados, precisam de educação. A esses, também, se educam. A educação é a pedra de toque da construção humana, quer na sociedade atual, quer em outra qualquer que se delineie para o dia de amanhã.

A educação é o desenvolvimento lógico, gradativo e perfeito de todas as qualidades que o espírito traga em si.

É mal, e grande mal, fazer-se que o espírito adquira apenas a experiência, o ensinamento daqueles que o dão.

Por isto eu me explico: é um defeito e um erro a educação dogmática. A educação não ensina: orienta. Ninguém suponha que educar é transmitir à criança os modos pelos quais o transmissor se guiou na vida. Educar não é o professor fazer que; e o professor neste caso é o educador; o seu discípulo, o seu aluno, faça daquilo que ele fez. Cada homem, cada espírito encarnado, constitui um caso particular na encarnação. Não se pode aplicar a experiência, a regra, a dedução de um ao trabalho, à experiência de outro. Cada espírito, porque traz um destino ou uma sina correspondente à sua evolução, e porque encerra uma personalidade distinta, também exige uma educação especial. Como os homens não podem dar, é claro, um sistema, uma forma de educação para cada espírito que surge sob a forma de uma criança, o seu papel deve ser de síntese. Descobrir as leis pelas quais cada espírito encarnado descubra por sua vez os meios de seu desenvolvimento lógico, espontâneo e próprio de cada espírito. Ao instrutor compete apenas dar-lhe os meios pelos quais ele se possa educar a si próprio. E então a primeira forma, a primeira imposição, o primeiro característico, é o da noção das vidas anteriores.

É o que tem faltado na educação geral da época atual. Já não tratando da sua maneira unilateral, da sua forma tão defeituosa, podemos dar a falta da noção das encarnações anteriores como erro capital da educação da época. Os homens, quando educam, visam, em geral, a adaptação do educando para o meio social ou então o desenvolvimento psíquico do educando. Não há dúvida que todos os homens têm necessidade de manter uma fiscalização perfeita sobre o seu físico, desprezá-lo estoicamente é erro, porque, se foi dado ao espírito, o corpo é para o espírito zelar por ele, não para se deixar subjugar pela sua paixão, é claro. Desenvolver apenas o plano físico, a forma física, é fazer que as outras qualidades passíveis de uma educação fiquem atrofiadas.

Dos três planos principais em que vive o homem; o sentimental, o mental e o físico; o menos importante é o físico, no entanto, é o de que mais se cuida na época mais segura para a sociedade futura. É necessário educar. Se presente, isto é erro, é educação unilateral.

As três faces do triângulo humano devem ser cuidadas a um só tempo. Não se vise uma forma de força física, porque a força física caracteriza a fera, caracteriza a bruteza, caracteriza o antidesenvolvimento sentimental e mental. É preciso então que as três formas, as três faces da personalidade, avancem gradativamente, mas simultaneamente. Não se deve dar preferência a nenhuma delas.

Se os homens tivessem desde o início a noção das encarnações anteriores, teriam também a preocupação do seu autoestudo, portanto a da razão de ser do seu estado na Terra. E isto conhecido pelo seu próprio esforço; os fatos, as imposições anteriores que determinaram a sua encarnação na época presente; muito mais fácil tornaria uma educação adaptativa que preparasse o homem na época, de acordo com a sua personalidade. É preciso então que se desperte no indivíduo o desejo e o esforço da melhoria. A escola dentro desse ponto de vista toma caráter todo especial. Deixa de ser a rotina que é o seu mal capital, deixa de ter a forma dogmática que ela herdou da forma religiosa, para ter um cunho todo individual e ativo. Não se pode compreender escola passiva.

Dentro das escolas, quando houver uma intenção de educação, de instrução, a maior atividade não deve ser a dos mestres, deve ser a dos educandos, a dos alunos.

Só uma escola na vida é segura e eficaz: é a da experiência. Todas as noções, se são verdadeiras, podem ser experimentadas. É necessário fazer que as crianças vivam na experiência das lições, sejam práticas, sejam teóricas. Uma preparação experimental para a vida, uma adaptação perfeita, porque só assim, mestre e aluno, podem ambos julgar da capacidade e de afrontar de certa forma a vida.

O problema dos homens não é o de se prepararem para todos os embates, para todas as formas da vida. Isto é erro. O produzir é especializarmos cada homem num determinado esforço, num determinado trabalho, numa determinada forma de ação; com isso a coletividade lucrará trabalho perfeito em todos eles, ao passo que generalizar a ação de um só é fazer que todo o seu produto seja imperfeito. É necessário sintetizar e não analisar nessa amplitude.

A ação do mental, do espiritual e do físico de um homem deve lançar-se para determinado ponto unicamente. Para isso ele é suficiente, para todos os pontos é muitas vezes precário. Não pode abranger todos os ramos. Então é preciso uma escola que desperte na criança a consciência e a certeza de si própria, que faça que ela, através da experiência, se conheça na plena atividade preparatória da vida, na plena experimentação, no pleno conhecimento de todas as suas tendências benéficas.

Qual o papel do professor? É o de preparar, o de encaminhar e sanear as tendências da criança, fiscalizando; as tendências más, amputá-las, as boas, incentivá-las.

A educação é o que mais falta à época presente, se queremos colher bom fruto, plantemos boa árvore. Se queremos colher bom estado de paz para a Humanidade de amanhã, de tranquilidade, de progresso, eduquemos os homens numa escola construtora e ativa, não numa escola destruidora. Longe as formas de destruir, perto as de construir. Fiscalizemos, meus irmãos; principalmente os pais; fiscalizemos nas crianças tudo que possa despertar nelas uma tendência má.

Não há maior exemplo do que os exemplos do brinquedo: ficam gravados, formam a mentalidade, formam o caráter. É preciso que sanemos, que fiscalizemos os brinquedos. As formas de destruição para um cérebro infantil, para um espírito que desponta tomam aspectos de outros tantos seres de formas reais, de seres com os quais as crianças conversam. Muitas vezes, meus irmãos; e dirijo-me principalmente ainda aos que são pais; é vulgar assistirmos as crianças conversarem com seus brinquedos. Muitas vezes são brinquedos que elas próprias organizam, porque, para elas, tem sempre muito mais valor um brinquedo que elas fazem do que os que se lhes dão, e travam diálogos sobre as coisas mais estapafúrdias desta vida. Conversam, contam casos, pedem opinião, familiarizam-se com os seus brinquedos. Ora, meus irmãos, se essa criança tiver em suas mãos um aparelho de trabalho, um objeto de estudo, em vez de soldadinhos de chumbo e de espada de pau, naturalmente dá trabalho à sua mente pacífica, construtora. Conversa com o seu brinquedo sobre o trabalho e sobre o estudo, e não sobre a guerra e sobre a morte. Não fica essa noção destruidora não fica a intenção de combate, porque muitas vezes também constitui ideal para a criança; porque as crianças têm ideal; o abater com um tiro, o poder dar um tiro de arma de fogo. Isso para muitas crianças é ideal. Por que têm instinto sanguinário? Não! Porque; é coisa muito lógica; ela lidou desde sua infância mais tenra com armas de fogo de brinquedo, que não dão tiros, e é natural que tenha aspiração à arma de fogo de verdade. Cria-se então a mentalidade destruidora. É vício, erro de educação, que leva à ruína, à guerra, à destruição, à anarquia, ao crime, meus irmãos. É preciso plantarmos educação construtora, preparando a sociedade de amanhã. Isto quanto às crenças.

Quanto aos adultos, o problema se torna mais sério. A Humanidade tem sempre em vista castigar os faltosos, os criminosos, os delinquentes. É erro perante qualquer doutrina de direito, erro perante a religião de Jesus. Não é de castigo que necessita o delinquente, mas de educação.

Só se pode fazer que um delinquente, um criminoso, se torne indivíduo útil à sociedade, por uma educação correspondente a uma educação que desfaça nele as convicções de seu crime, que lhe traga um arrependimento consciente, lógico, racional, e não um temor e um remorso pela experiência.

A justiça atual dos homens explora o remorso, procura produzir o remorso no criminoso. Isto, além de ser maldade sem nome, é trabalho improdutivo. Devemos fazer que o assassino, principalmente o assassino, esqueça inteiramente o seu erro. Só assim ele poderá progredir. É preciso passar esponja sobre o passado, é preciso o perdão, a indulgência perfeita, para se obter um homem melhor. O castigo não corrige, mas, ao contrário, muitas vezes estimula o ódio do castigo, faz que o homem alicerce ainda mais sus tendências destruidoras, revigora nele um instinto de vingança. Eduque-se. Em vez de penitenciárias, escolas racionais; em vez de cubículos isolados, a noção de apoio, da comunidade, da vida coletiva; a noção do trabalho, a noção do esquecimento, a noção da regeneração, a educação consciente, o esforço para que o próprio delinquente compreenda o seu erro. Sem que ele compreenda, nada se terá obtido, nada se poderá fazer pela compreensão dos outros.

E perante a nossa forma de ver, espiritualistas, dentro do ensinamento da nossa doutrina, ainda essa forma de querer corrigir pelo castigo toma proporções mais agigantadas. Vou, em traços muito gerais, estabelecer aqui; e em traços gerais porque a minha palestra já se vai alongando; uma situação que se pode bem dar. Sabemos que quanto mais forte, quanto mais decidido a progredir é o espírito, tanto mais árdua é a sua missão na Terra. Portanto, os espíritos que têm provas mais dolorosas, mais rudes, são espíritos que compreenderam melhor a forma de necessidade de passar por elas. As provas são dadas porque o espírito pede, porque o espírito quer tê-las. Aquele, portanto, que as tem mais duras e mais rudes, melhor compreensão tem do progresso do que aquele outro que tem em desempenho provas suavíssimas na Terra. Então, de posse dessa noção, figuremos o caso.

Um tribunal de julgamento, um juri. Está o juiz e está o réu. O réu, naturalmente, é espírito que escolheu na encarnação a prova de passar 20 ou 30 anos encarcerado. Uma prova, portanto, formidável, um espírito, portanto, de compreensão do seu destino, formidável de energia fantástica para poder tê-la escolhido. Eis o réu diante do juiz, que tem na encarnação a sina de viver com todo o conforto material, como em geral vivem, e com toda a tranquilidade do seu espírito, e apenas o dever de apelar para a sua consciência, o que nem sempre ele faz, seja dito de passagem. Comparados o dois espíritos em prova, qual deles tem mais mérito? É o réu. No entanto, qual deles julga? O de menos mérito, o juiz.

Isto apenas é um esboço, para mostrar como sob o ponto de vista doutrinário é falha a justiça dos homens. Aliás, para mostrar sua falência, não fora necessário mais que a frase de Jesus Cristo:

Não julgueis para não serdes julgados”.

Em vez de julgarmos, meus irmãos, eduquemos pela força, pelo sentimento, pelo pensamento, pelo ato. Pelo exemplo, principalmente. Mas eduquemos, conscientes de que arquitetamos futuro melhor e zelamos pelo progresso humano. Fora a educação, nada mais é prático nos dias de hoje.

Que a paz fique convosco, graças a Deus.

Esquema de Ensino 

Organizado segundo as instruções do conferencista.

Ensino profundamente prático, racional e humanista.

Sem preconceitos de castas, credos, teorias e doutrinas.

Alfabetização

Cruzada do ABC

Escolas

a) Fixas

Por toda parte, quartéis, fábricas, oficinas, fazendas etc. Nos arraiais, cidades capitais, (Jardins de Infância)

b)Móveis

Caravanas educacionais, penetrando o país.

Estacionando periodicamente.

Alfabetizando (ensino intuitivo).

Primário

Integral

Escolas:

a) Sem humilhar

b)Sem amedrontar

c)Sem impor

d) Prática e ativa

a) Livres entre si

Secundário

Curso prep.

Escolas:

b)Encadeadas por

Conforme Comte

Matemática

Astronomia

Física

Química

Biologia

Sociologia

Moral

c)Justaposição

d)Progressiva

Superior

Cursos

Livres

Escolas

livres

a) de profunda adaptação

b)de preparação especial de técnicos

c) de seleção dos mais aptos

d) de honra ao mérito comprovado

Corpo docente

Seleção por concurso sob o império da justiça; guerra ao magistério diplomista.


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