“A Emancipação da Mulher” – por Antônio de Aquino (espírito)

Periódico: Novo Horizonte

Rio de Janeiro, n.1, Janeiro de 1932


A Emancipação da Mulher

Noite de 07 de Dezembro de 1931

Que o amor único de Deus inspire todas as almas para o Bem. Antônio de Aquino

Meus irmãos.

Temos, ultimamente, tomado por tema das nossas palestras, assuntos de ordem geral e assuntos que se prendem à sociologia, quase em si. Estudamos de forma mais ou menos detalhada o que se poderia dizer como programa sobre educação, porque supomos que este era dos pontos mais necessários a tocar-se na época presente. Quem se proponha, como nós todos; espíritos e espíritas; a orientar aqueles que possam depender de nós, deve ter em mente que é pela educação, primeiro passo, que pode conseguir alguma coisa. Aliás, sobre isto já falamos.

Queremos então hoje completar o que dissemos, completar de forma bem positiva e também reparar uma injustiça porque pretendemos falar no papel da mulher na sociedade atual.

Isto completa o primeiro trabalho sobre educação, pois estamos convictos de que quem tem realmente nas mãos a orientação da Humanidade de amanhã, quem tem realmente ao seu alcance o meio de estabelecer uma era de paz, de ordem e de progresso, é a mulher nos lares.

Aí sim. Só uma educação construtora pode no dia de amanhã, florescer. Porque o que pretendemos é formar homens para a paz e não formar máquinas para a guerra.

Assim sendo, é necessário, é urgente que se desenvolvam desde logo na criança os sentimentos afetivos, os sentimentos de fraternidade, de paz, de amor. Portanto, é necessário desde logo, na criança, o impulso materno, construtor, sadio e bem orientador para o futuro.

Quando clangorejam por toda a parte as trombetas de guerra, quando as bandeiras marciais excitam na juventude a predisposição e preparam o entusiasmo para a destruição dos semelhantes, quando as bandas entoam os hinos de combate e de vitória e os sacerdotes ditos cristãos levantam as cruzes e abençoam os exércitos, as lágrimas que umedecem o solo são as lágrimas das mães. No meio do entusiasmo da força viril, no meio da expansão bruta, na véspera da destruição tremenda, ninguém se lembra da paz. As escolas se transformaram de súbito em casernas de destruição, mas os lares não, e depois que os filhos se transformaram em soldados, depois que desertaram da primeira escola construtora, que é o lar, os seus lugares não se preenchem mais e não há mais alegria nos lares. É o protesto silencioso das mães, é o trabalho construtor para a paz.

Portanto, é da educação materna que necessitamos para os dias de amanhã, para obtenção da Humanidade dos fins mais nobres e mais elevados a que o homem se possa destinar, assim da mulher, principalmente das mães.

Se em toda a parte, nesse tremendo após-guerra, cujas consequências tão dolorosas ainda deixam muito para realizar, se nesse após-guerra que hoje ainda não se extinguiu infelizmente, aí, o único lugar não corrompido, não penetrado pelo sentimento de destruição formidável, é o lar. A escola sofreu um influxo tremendo, um influxo anárquico, um envenenamento de ódio. A escola não se voltou mais para a paz. Tornou-se a arma do imperialismo, tornou-se a arma do nacionalismo, porque se interpreta na escola, friso bem, porque já falei nesse ponto de outra vez; um patriotismo doentio.

É necessário que além das pátrias o homem veja o irmão, porque a fraternidade universal não se deve fazer de país para país, mas de homem para homem. Antes de se lhe perguntar a que raça pertence, que credo professa, que classe social ocupa, o homem deve auxiliar-se mutuamente, deve fazer o apoio, deve fazer a solidariedade pela fraternidade universal, sem o que tudo quanto construir nesse terreno é retórico, é falso, é aparente. E para que o homem chegue à perfeição de não ver no semelhante, antes do amor, as características de uma raça diferente, é necessário que tenha aprendido no lar, ao influxo materno, o amor universal, porque as mães realmente amam.

A religião católica romana colocou, durante séculos, a mulher em papal secundário. A civilização ocidental, eivada de formidáveis erros, perpetuou com leis, regras inalteráveis, aquilo que a religião ditara e hoje, falemos sem paixão, meus irmãos, são as condições de vida no Ocidente bem diferentes, bem acentuadamente várias, uma para o homem, uma para a mulher.

Às prerrogativas do homem, às liberdades do homem dentro da civilização, a mulher não tem o direito de atingir, o seu papel é única e exclusivamente de dependência ao homem. É necessário corrigir-se.

Felizmente, já veio no influxo renovador do Oriente para o Ocidente, que se opera no campo social, a redenção da mulher. É necessário, segundo nos parece, que essa redenção seja gradativa. Todos sabemos que quando passamos bruscamente da treva intensa para a luz intensa, nada vemos. Tateamos num deslumbramento. É preciso então uma gradação através da penumbra da adaptação à nova vida, ao novo direito, à nova liberdade. Mas o que é necessário, urgente, seguro, e que se corrija, por um feminismo bem compreendido, o papel e a situação da mulher, porque o feminismo, minhas irmãs, não deve ser imitação daquilo que o homem faz.

Feminismo, não é masculinismo. Não se pugna pela liberdade da mulher masculinizando-a. É necessário reivindicar direitos que ela possui, e esses pela conquista pacífica, mas tenaz, de todo o dia. Estou, convosco, no vosso movimento.

O que é necessário é que dentro dessa liberdade que vedes em todo o mundo ocidental conquistando passo a passo, não vos esqueças dos lares. Este o problema. Este, o ponto mais delicado da vossa emancipação merecida: os lares. Porque, realmente, os homens estão muito mais sujeitos aos sentimentos corruptores do egoísmo, da destruição, da morte, do que as mulheres; elas têm por isso mesmo, o dever de zelar para que em seus filhos nunca desperte esse sentimento destruidor. Se a escola corrompe, se a caserna corrompe, se a imprensa apaixonada corrompe, se o livro demagogo, envenenado, corrompe, só o lar orienta. Felizmente, é o primeiro impulso, felizmente é a primeira orientação. Mas vede bem, meus irmãos, não se pode formar uma mentalidade livre, não se pode estabelecer um caráter independente, não se pode firmar uma personalidade senhora de si na crença, por mestras escravizadas. E então se impõe como necessidade atual, a emancipação da criança pela emancipação da mulher. Esses dois problemas, tão intimamente ligados, devem ser, no entanto, estudados por toda a parte, mas sem paixão, mas sem extremismo, mas sem exagero. Só assim se poderá obter proveito, porque; voltamos a um ponto já tocado, mas necessário de ser tocado ainda; as maiores revoluções, as maiores conquistas não se travam no terreno das armas: travam-se no terremo social, mas pacífico. E é necessário que, para obtenção de dias melhores, revoluções sucessivas se façam, mas revoluções racionais e pacíficas, não pela força. Não temos direito de esmagar, não temos direito de destruir pela eliminação, mas temos o dever de corrigir. E é dentro desse dever, dentro da imperiosa necessidade de nossa época, que nós, espíritos, conjugados convosco, ou escravizados na matéria, devemos iniciar uma campanha redentora.

A época redime por si própria e não comporta mais escravos. Vede que uma própria tendência já se mostra entre os homens para melhoria da situação dos próprios animais. Já se pensa. E isto é alguma coisa de confortável; em libertar do jugo os animais pacíficos e domésticos e não mais se condenar à morte para o sustento do homem aqueles que também têm direito à vida, porque na vida surgiram independentes da vontade do homem. Se este movimento é tão louvável, se esse trabalho de emancipação é amadurecido na própria evolução histórica, se vemos através das idades compreendendo que não deveríamos mais nem dominar nem escravizar os vencidos, se ainda ontem assistimos ao movimento extraordinário de redenção dos últimos escravos da América e hoje vemos, com a campanha tenaz e pacífica da Índia, um meio de libertação dos últimos escravos de uma potestade, que é silenciosa, que é serena, mas é um jugo, porque havemos de amadurecer na civilização ocidental, porque havemos de alimentar um impulso católico, ou sustentar a mulher em plano secundário? Deve-se redimi-la, mas deve-se redimi-la racionalmente, e com ela se redimirá a criança.

Deixemos, porém, por um instante os ideais da luta. Deixemos por agora o empolgante no nosso tema para volvermos a um pouco de aspiração futura, de idealismo remoto. Que seria o mundo em seus lares, sem uma educação construtora, conduzindo para o bem? Que seria o mundo, isento da face da Terra o fantasma das guerras? Nem fronteiras de pátrias, nem subjugamento de raças, irmãos se congraçando em toda a parte, sem ódio, sem rancores, nem rios de sangue, nem marcos de vitória. As bandeiras como um trapo de identificação, não como sinal de força, não como emblema de facções contrárias, e, os hinos que pudessem existir, de redenção da raça humana, não de triunfo, não marciais, cantados imponentemente sobre os escombros de uma derrota. Ah! Uma Humanidade redimida!

Os dias esperam por vós. E não contesteis que sejam para vós. A encarnação se sucede. Hoje deixais a vossa matéria, mas amanhã volvereis, porque assim como através de corpos, o vosso espírito se purifica; assim como através dos vários filtros a gota de água se torna cristalina, assim também, através das idades, as ideias, remontam, reencarnam, progridem e cada vez apresentam características mais aperfeiçoadas. É por isso que o homem, observando a História, diz sentenciosamente: a história se repete. Repete-se, mas progressivamente, e é porque os homens, portadores das ideias, voltam, e é porque os espíritos não podem concluir através de uma encarnação uma obra talhada para milênios.

Assim voltareis para o Amanhã que pregardes, voltareis para os dias que semeardes, voltareis para a paz que ensinardes, para a humanidade dos vossos filhos, para o trabalho dos vossos netos. Mas voltareis conscientes de que voltareis chamados a um trabalho, operários que somos todos de uma grande conquista universal; a Paz. Pois trabalhemos nessa obra, pois vamos redimindo na mulher aquilo que uma religião falsa tangeu de forma que ficou impregnado nas cordas sonoras de uma civilização. Arquitetemos a paz, porque somos operários do progresso humano, do bem-estar coletivo. O mundo é o plano da nossa evolução. Aqui voltaremos. Preparemos nossos dias para quando voltarmos.

Que a paz fique convosco.

Orador: Antônio de Aquino.

Médium: Gustavo M. Pontes.

Taquígrafos: João Balthazar e Luiz Isquierdo


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