“A evolução da Alma” – por Antônio Aquino (espírito)

Periódico: Novo Horizonte

Rio de Janeiro, n.1, Janeiro de 1932


A Evolução da Alma

Noite de 09 de Dezembro de 1931.

Que o Amor único de Deus inspire todas as almas para o Bem. Antônio de Aquino

Meus irmãos.

Fazendo exceção na natureza dos temas que temos abordado ultimamente em nossa palestra, hoje não vamos entrar nesse assunto que tantos entrechoques apaixonados têm causado na face da Terra. Não queremos discutir as doutrinas econômicas, sociais ou políticas, não queremos encarar o estado da Humanidade nessas três formas básicas da sua apresentação civilizada, para entrar hoje no âmago espiritual dessa Humanidade.

Sabemos perfeitamente que a par das conquistas materiais das civilizações devem caminhar as conquistas morais, as conquistas espirituais, sem o que essa parte material se torna apenas aparência, não terá força que a sustente. Será parede sem vigamento sólido e tenderá a cair ao mínimo contato. E então, se nos temos ocupado da natureza da constituição dessa parede, se temos tratado dos problemas que mais diretamente afetam a civilização ocidental na hora que passa, encaremos agora os problemas sociais, porque tudo isso já é efeito não é causa. Tudo isso já é uma derivada do fato dos homens não terem seguido de início, e não terem sustentado, uma orientação cristã, unicamente.

Pareceria aos meus irmãos que tínhamos desvirtuado o cunho da razão de ser das nossas palestras. Sabemos que o nosso meio, o nosso ambiente é todo de religião quando pois, aqui estamos, devemos cuidar muito mais das questões que afetam ao homem perene, espiritual, isto é, ao espírito imortal, do que das que afetam o homem mortal, material, como membro de uma civilização, como cidadão, como fator político. Tratamos, é verdade, dos problemas da encarnação, mas agora vamos tratar dos problemas da vida e da morte; do estado da evolução da alma, da conquista do espírito, porque sabemos, como espíritos e espiritualistas, que toda a situação do mundo é decorrente dos nossos méritos e deméritos, digo melhor, dos vossos méritos e deméritos porque apresentais na Terra, encarnado; estais fartos de saber disso; aquilo que anteriormente fizeste por merecer. Se assim não fosse, a lógica que deve presidir a justiça estaria por terra. Pois vamos encarar essa mesma questão vista por outro lado, vista agora pelo efeito.

Podemos hoje pelo estado a bem-dizer de anarquia da civilização ocidental, pelo entrechoque de paixões que se firmam e se travam em toda a parte, podemos hoje aquilatar do estado dos espíritos que encarnaram para formar essa civilização. Temos considerado e analisado até hoje a encarnação do homem em si, e sabemos que o espírito que encarna, merece a sua encarnação; desempenha a sua sina e desencarna depois.

Hoje vamos encarar o problema de forma coletiva, em conjunto, porque obra de conjunto fizeram para merecer ou desmerecer. O fato é lógico e tem de dar-se. Dá-se. É por isso que as nações vão sempre reproduzindo na coletividade aquilo que outras fizeram anteriormente, outros povos, outras massas. Também há as reencarnações das épocas, podemos dizer. O espírito que caracteriza um povo, na generalidade ultrapassa a morte. Vai além das encarnações e muitas vezes, desaparecido esse povo, surgindo um outro que não tinha contato etnográfico de espécie alguma com ele, a tendência que animara esse povo ressurge no outro que não lhe é parente pelos laços físicos. É a ideia que desencarnou e que reencarna. São os espíritos em bloco. Constituíram uma nação e vêm mais evoluídos, constituir outra. Já trazem, no entanto, o impulso que os caracteriza, a reminiscência de sua encarnação coletiva anterior. Os exemplos deste fato na História são muitos, e se quisermos analisá-los, se quisermos procurar nele um ponto de contato decidido, temo-os em grande quantidade.

O povo francês de hoje; isto é exemplo geral; nada tem de comum, etnograficamente falando, com os gregos do princípio da Antiguidade, com os gregos do século de Péricles. Entretanto, o amor às artes, a mesma tendência espiritual para o Belo, a mesma intenção na prática da Arte que caracterizou o século de Péricles, surgiu na França, não digo atual, mas do princípio deste século, porque daí para cá já houve diferença. Se observarmos, nenhum característico etnográfico houve. Vejamos outro povo. Os Romanos do tempo das conquistas nada têm de comum com os alemães de nossa época. No entanto, o espírito conquistador, o mesmo caráter imperialista que definiu o Império Romano, definiu o Império Alemão de há pouco. Outro. Os Fenícios, conquistadores do Mediterrâneo, conquistadores do Atlântico, autores do primeiro périplo da África, vindo até as costas da América, tinham paixão intensa pela navegação e nada têm de comum como os Portugueses do século XV. No entanto, sua epopeia de conquista dos mares empolgou em toda a sua amplitude os lusitanos. São encarnações e desencarnações coletivas.

Isso que digo, porém, são exemplos. Quero mostrar como na situação atual do mundo devemos encarar o problema pelo lado espiritualista. Devemos optar por uma forma, não digo fatalista, mas de consequência. O que hoje se passa na face da Terra é aquilo que os espíritos fizeram por merecer quando coletivamente aqui agiram anos. Nós podemos, sem dúvida alguma alterar o curso dos acontecimentos terrenos; nós, falando eu como homem, porque podemos doutrinar, esclarecer, produzir nós espíritos um avanço em sua marcha progressista. Melhoramos assim, se procuramos doutrinar os espíritos para a encarnação de amanhã, desaparecendo o que aí está.

O que aí está é obra que se tem de desempenhar, é transe pelo qual a Humanidade tem de passar, é prova de seus méritos anteriores, mas isso desaparecerá se se plantar nos espíritos que virão constituir os espíritos de amanhã, nos que encarnaram imediatamente, uma tendência diferente dessa, uma tendência de amor, porque a única coisa que falta na Humanidade de hoje é amor, meus irmãos, sob o ponto de vista político, moral, social, profano, de uma forma geral, porque não se tratando de religião, o amor é quase ridículo.

Se nós, no terreno político, no terreno das reivindicações humanas dissermos que queremos agir pelo amor; se amanhã um chefe revolucionário de qualquer espécie, agitasse sobre a turba o seu verbo para movimentá-la no terreno da opinião e encaminhá-la para o lado do amor, ele e nós cairíamos no ridículo. É tal o estado de espírito da Humanidade, o utilitarismo que aí se desenvolveu, a intenção do egoísmo, que quando se fala de uma ideia geral altruística, a não ser ideia mecânica pelo socialismo, mas somente pelo amor, torna-se ridícula.

Há exemplos bem frisantes em vosso próprio país. Escuso sempre de falar no terreno nacionalista, porque acho que todos devemos nos considerar irmãos pelo amor; mas vou citando exemplos. Assim como citei há pouco de outros países, cito agora um do vosso.

Um político influente de há pouco tempo, dos poucos bem-intencionados que têm passado pela vossa terra, certa vez escreveu, tomou por divisa ou disse em discurso, uma frase que, realmente, aplicada à política, seria a resolução do problema: paz e amor. No entanto, foi ridicularizado por isso! Assim como foi em vossa terra, esse estado de espírito da Humanidade, seria em qualquer outra.

Amor só se compreende na Terra, ou sob a forma teórica no terreno religioso, como flor para se dar, não para se cheirar ou ostentar, ou então no terreno material. De outra maneira não se concebe o amor. Tudo o mais é supérfluo. A fraternidade não existe na Terra e no entanto, tem de existir, sem o que os homens não avançarão na coletividade. Excluir a ideia de amor é excluir o ideal da Humanidade, é excluir a fraternidade. Que é caridade bem compreendida, senão uma consequência direta, uma resultante imediata do amor? Porque não se deve considerar caridade, o ato automático de dar. Esse não exige amor. A caridade bem-feita, como deve ser, não prescinde do amor e nós devemos ampliar mesmo o conceito que temos de caridade.

Não devemos, nem temos o direito de exigir daqueles que nos pedem, uma humildade perfeita. Não temos o direito de exigi-la, porque também não possuímos essa humildade perfeita. A esmola não deveria ser fonte de humilhação. Devíamos ter certeza de que dávamos sem humilhar, e quem recebesse deveria ter certeza de que recebia porque precisava. No entanto, assim não se dá. Somos orgulhosos. E pode quem nos pede vir eivado de um pouco de orgulho.

Sabemos que Cristo, o mais meigo e humilde dos homens, condenou o orgulho e fez que ele fugisse de entre os homens, mas apesar de desencarnados, os espíritos permanecem num terreno orgulhoso. Os homens; nem é preciso falar; têm essa alimentação, têm em si o germe do orgulho. Pois bem, meus irmãos, para que não humilhemos quem nos pede é necessário que façamos entre nós, que damos e aquele que nos pede, um círculo de fraternidade e de amor, sem o que resultará humilhação para quem pede.

Ora, meus irmãos, se é esse o estado da Humanidade atual, falta exclusiva de amor, se entre os homens não se pode adotar essa força que congrega os inimigos para um ideal comum, pois essa força está banida por momento dos processos sociais e políticos, só nos cumpre neste instante voltar nossas vistas para o terreno cristão, principalmente, porque desaparecido está hoje o Cristianismo em quase todo o mundo. Houve uma forma de descrédito para o trabalho cristão, para a pregação evangélica. Surgiu sobre o Cristianismo uma igreja sem credenciais, igreja falsa, e os homens em vez de se darem ao trabalho de verificar se os alicerces eram seguros, condenaram toda a obra pela estrutura do edifício.

No entanto, os alicerces são o Cristianismo puro, são a palavra amor, que falta à Humanidade. A roupagem é que é falsa. Pois preguemos pelos alicerces, pois construamos sobre estas bases e em todos os homens plantemos uma semente de fraternidade e de amor para preparar a encarnação de Amanhã, para que amanhã o entrechoque de paixões humanas cesse, o orgulho desapareça, a vaidade não exista mais. Só assim se poderá resolver na Terra, na Humanidade de hoje, pelo lado espiritual, pelo progresso do Cristianismo, pela compreensão do amor, o problema urgente que se delineia e se agrava de dia para dia. Preparemos a encarnação de Amanhã. Ela é em massa. Os homens encarnam na coletividade. E possam os filhos dos meus irmãos formar uma humanidade melhor, um melhor ambiente, compreender melhor suas funções de espírito, porque até hoje os homens se têm absorvido pelas suas funções de homem. É preciso considerar que a vida não se extingue na morte, que as obras não se acabam pelo desaparecimento físico do seu autor e que há uma continuidade de além-túmulo para a vida material e da vida material para além-túmulo. Não há morte, porque o contato é constante e diário.

Preguemos, portanto, pelo amor, pela solidificação dos seres e pela compreensão dos destinos do espírito, não dos destinos do homem tão somente. Preparemos o ambiente para os nossos sucessores e esclareçamos as gerações de Amanhã, porque elas estão no Espaço preparadas para melhorar o mundo. Só uma encarnação coletiva resolve a situação atual da Humanidade.

Que a paz fique convosco. Graças a Deus.

Orador: o espírito de Antônio de Aquino

Médium: Gustavo M. Pontes

Taquígrafos: João Balthazar e Luiz Isquierdo


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