“Evolução e Declínio dos Povos” – por Antônio de Aquino (espírito)

Periódico: Novo Horizonte

Rio de Janeiro, n.1, Janeiro de 1932


Evolução e Declínio dos Povos

Noite de 30 de novembro de 1931.

Que o amor único de Deus inspire todas as almas para o bem. Antônio de Aquino

Meus irmãos.

As responsabilidades da hora presente sobre nós, quer sejamos espíritos desencarnados quer encarnados, crescem continuamente, crescem porque, quanto mais se torna obscura a situação atual do mundo, quanto mais anuviados venham os horizontes para o amanhã da Humanidade, tanto maior é a necessidade de trabalho consciente e elucidativo, sincero de cada um de nós.

Todos temos presente, porque devemos formar um juízo de acordo com a nossa mentalidade, a situação completa, exata para nós da balbúrdia, da confusão da nossa civilização. Digo nossa, porque labuto convosco, porque estou em contato convosco, e porque por isso sinto a civilização que levou, sob o ponto de vista materialista, o mundo à tal situação atual.

Sabemos bem, entretanto, que todas as coisas têm seu período de ascensão, estabilidade momentânea e de declínio. Todas as coisas nascem e morrem, no dizer vulgar. Aparecem e desaparecem. Encarnam e desencarnam. Corporizam-se e se desfazem. É a lei.

Portanto, a própria civilização chega a um ponto de estabilidade e começa a declinar.

É verdade que se pode sustar o declínio de uma civilização pelo surgimento de um gênio, pelo aparecimento de um predestinado, mas difícil é fazer que uma civilização declinante retorne a um período ascensional. Pode estacionar, mas quando cair, cai com mais fragor. Exemplos? Temo-os dois bem separados um do outro.

Um, na Grécia. Naquele país, depois de entrar no seu período de decadência absoluta pelas guerras internas, pela destruição, pela luta de cidade contra cidade, pela estagnação do progresso cultural, depois do período dos oráculos que orientavam a Grécia, depois do período da Guerra do Peloponeso, apareceu um homem. Esse homem sustou a queda, manteve durante determinado espaço de tempo a Grécia em nível de cultura digno de sua civilização, mas quando desapareceu esse homem, rojou-se a Grécia para o abismo de sua própria civilização.

É o exemplo distante; são dois extremos; é o da época presente. Todos sabemos, sem querer aludir a paixões nacionalistas de espécie alguma, que há uma nação europeia, uma nação latina, que de determinado tempo para cá entrou num período de declínio, de decadência, e onde, também em determinado momento, quando maior parecia a sua anarquia interna, surgiu um homem que, não fazendo naturalmente como Pitágoras, porque este fez pela elucidação filosófica e científica, mas pela implantação de um regime de força, também sustou a queda, também estacionou a evolução para o declínio. Mas, como sucedeu aos gregos, talvez suceda a esse povo. Passada a esfera de atividade desse homem, é possível que continue a decadência e que a nação role para o declínio. Aliás, é filha da civilização do Ocidente, e a civilização tende a declinar. Está no seu momento.

Há os países novos e os continentes. Podemos dizer mesmo que já vêm trabalhados pelos germes das civilizações velhas. São países novos com civilizações velhas, chamadas a um grau de evolução muito brusco, que não tiveram um período de infância bem calculado e que não amadureceram até o ponto que atingiram.

Colocaram-se, sem dúvida, em nível bastante elevado, quase por uma série de acidentes. E se quisermos examinar esses acidentes, iremos ver que um deles foi a guerra última, que agitou o mundo, a grande conflagração de há poucos anos.

Todos sabemos que até o período imediato de antes guerra, as nações da América do Sul podiam ser consideradas como nações em franco progresso, mas não com formação definitiva com já hoje se podem considerar. Surgiu, porém, a guerra. Com ela, a paralisação da produção que sustentava até certo ponto a civilização dessa América e, estacionadas essas fontes produtoras, tiveram as nações que produzir por si próprias, e de mercados consumidores que eram, passaram a mercados exportadores. Passaram a vender na maioria aquilo que dantes compravam. Então desfrutaram uma posição desde logo elevada e amadureceram na sua civilização. Faço exceção dentro da civilização do ocidente.

Da mesma forma que o continente sul-americano está o continente colonial da Austrália, que vai em período ascensional. Mas isso é muito pouco dentro da civilização do ocidente. O mais só envereda por um caminho puramente duvidoso, por uma estrada de competições pessoais. O mais está hoje incerto e tende a cair.

Há conquistas revolucionárias; devemos ser francos; que ganham terreno dia a dia. Há movimentos coletivos que bem ou mal se alastram de maneira assustadora dentro da Humanidade ocidental. Combater esse surto ou opor embaraços à expansão dessa ordem de ideias, é impossível, porque é impossível aos rios que se despejem das alturas maiores, fazer-se um obstáculo artificial. Era preciso uma barragem natural, mas essa não existe. Então, o Ocidente, se compreendesse a sua situação, deveria tratar de suavizar as consequências. Porque havemos de provocar a luta? Se o momento atual é obscuro, se os horizontes estão anuviados, as nossas responsabilidades individuais crescem.

Até hoje acostumamo-nos a ver o problema universal tratado por grupos. As nações comparecem perante os tribunais internacionais para decidir das suas questões, incorporadas. São nações só pelas suas representações diplomáticas. Devemos nos acostumar de hoje por diante a ver a Humanidade representada pelos indivíduos.

Ao invés da fraternidade internacional, fraternidade que fatalmente esbarra nas fronteiras, compreendemos na hora presente; a fraternidade individual de homem para homem, sem credo, sem casta, sem raça e sem classe, a fraternidade puramente doutrinária, puramente convincente, não a fraternidade retórica. Não se pode falar, meus irmãos, em paz, em amor, em fraternidade, em concórdia, quando se tem por único objetivo o armamento, quando a única preocupação que trazemos é a de construir meios de destruição, de ofensiva, tanto mais poderosos quanto possíveis. Isto não é credencial. É claro que quem vai pregar a paz, armado, desde logo desacredita suas próprias palavras e não há entre os homens, digo melhor, entre as nações, uma só que pregue a paz desarmada. Todas elas falam, todas elas têm orientações, todas elas; quase acreditamos; estão bem-intencionadas, mas fazem da tribuna, trincheiras, e de porta-voz a boca dos canhões. Isto não é a paz. Isto é apenas um período de preparação, isto é apenas trégua momentânea, resultante do desequilíbrio. Não é paz. É o estado latente de luta. Não é o que queremos. As nossas responsabilidades individuais crescem, porque temos obrigação, como indivíduos, como unidades, de opor uma resistência a esse pensamento universal.

Há uma teoria, aliás muito aceitável, que diz serem as guerras um fenômeno social como outro qualquer. Por que não se acreditar que as guerras independem da vontade dos homens, que vêm como as pestes, como vêm os cataclismos físicos, pela necessidade de eliminação de corpos vivos da face da Terra? Pode ser fenômeno natural, independente da vontade dos homens mas, neste caso, se há possibilidade de em nossa casa irromper um incêndio, naturalmente não vamos apagá-lo com palha, e se há possibilidade de irromper entre os homens a guerra pela discórdia coletiva, não vamos combatê-la com as armas porque as armas são o alimento de nutrição da guerra. É preciso opormos argumentos contrários, porque só se consegue a anulação de uma quantidade por outra de sinal contrário. Por que havemos à guerra adicionar o ódio, a destruição, o mal? Nunca debelaremos esse mal, que crescerá progressivamente. Oponhamos à força da guerra uma força igual e contrária para destruí-la, sem o que nada de positivo se conseguirá. A mentalidade se define de tal maneira, que há necessidade de se fazer guerra à guerra. Este, o estado atual.

É preciso nos convencermos dessa extraordinária responsabilidade. E, perguntareis: que é a guera? Um embate de povo contra povo? De nação contra outra nação? De exército contra outro exército? Não apenas isso. Também as discórdias internas das nações que chegam a luta pelas armas são a guerra. Não vemos apenas as questões internacionais. Vemos as lutas armadas. Evitemos as guerras, sejam revoluções internas, sejam agitações de caráter social, sejam convulsões apaixonadas de caráter político. Vamos pregar mentalidade construtora, convictos de nossas responsabilidades. Pregar pela educação, pregar pelo convívio, pregar pela doutrina, sem paixões de espécie alguma, só pelo ideal. O ideal é grande força, é a única coisa imortal entre os homens. Vão-se as personalidades, mas o ideal alastra-se e fica, e passa de geração a geração, com uma sequência fantástica. E enquanto não surge um predestinado com a capacidade talhada para realizá-los, o ideal não desaparece da retentiva das massas. Muitas vezes, por fenômenos também bastante frequentes, são os ideais atingidos na aparência pela mistificação dos homens, ou pela instabilidade dos sucessores. Isto é grande mal.

A Revolução Francesa levou os homens ao entusiasmo formidável por tudo que se pudesse conseguir no terreno humano na época: liberdade, igualdade, fraternidade. Não houve mistificação dos homens. Eram conscientes. Eram sinceros os que se atiraram à fogueira tremenda da Revolução para conquistar para os dias futuros, os três grandes luzeiros que haviam de orientar a Humanidade do dia seguinte. Houve, porém, a pouca competência, o pouco mérito dos sucessores. Faliram, e hoje nas repúblicas, forma a corrente imediata do movimento revolucionário francês, existe liberdade, igualdade, fraternidade, mas apenas nos textos constitucionais. Mais nada. Na prática, onde têm os homens essas três coisas? Onde residem a igualdade, a fraternidade? Ainda se procura determinar, nas representações tão somente, uma liberdade para os cidadãos, uma liberdade para os representantes das nações, com exclusão dos sexos.

Da fraternidade nada se fala. Da fraternidade, nenhuma palavra! Que fazem as repúblicas de doutrinário, de lógico, de político pela fraternidade?

Nada, absolutamente nada!

Os homens desprezam-se, separam-se, vivem dentro do seu egoísmo consumidor, entorpecente, maléfico e dessa divergência, dessa exclusão de unidades, nunca surge um todo completamente identificado entre si. É por essa razão que, falindo nas suas três bases primordiais, pela incompetência dos sucessores da Revolução Francesa, já carecem hoje, as repúblicas, de um sistema que as revigore, que as renove dentro do terreno político, dentro do terreno social. Este o máximo problema da vossa época.

Não vos direi, no entanto, que atingido seja ele por um golpe revolucionário. Somos contra as guerras, contra a violência, contra a luta armada. Queremos a paz doutrina. É preciso, portanto, deixarmos bem patentes porque temos extraordinárias responsabilidades na hora presente, os vícios, os erros, as blasfêmias, as mistificações dos governos atuais para que, em surgindo governos futuros para os povos, bem nutridas se tornem também as conquistas alcançadas de amanhã. Não permitamos que as mãos ineptas dos continuadores incapazes deturpem a obra de qualquer doutrinário de qualquer expansão de melhoria para a Humanidade dos dias de hoje. Nós, na convicção dos nossos atos, na certeza dos nossos pensamentos, não devemos duvidar nem tremer um só momento, mas agir, principalmente, pela paz, pela estabilidade de amanhã, porque sem ela nada se poderá conseguir. Fomentarmos a luta, seria abreviar a atual queda do ocidente. É no terreno da paz que as sementes da ordem e do progresso fecundam.

A Humanidade de hoje, no seu período obscuro de necessidades, de miséria, de dores, de declínio, com seus horizontes anuviados, requer de todos nós serena convicção de nossos deveres e precisa confiança em nós próprios.

Que a paz fique convosco.

Orador: o espírito de Antônio de Aquino

Médium: Gustavo M. Pontes

Taquígrafos: João Balthazar e Luiz Isquierdo


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NOTA DO ARQUIVO ESPÍRITA: A imagem no início da página é das ruínas de uma cidade de 5,000 anos na Índia (Mohenjo Daro) e é apenas ilustrativa. Evidentemente, ela não faz parte do documento original.


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