“O ideal não morre” – por Antônio de Aquino (espírito)

 


Periódico: Novo Horizonte

Rio de Janeiro, n.1, Janeiro de 1932


O IDEAL NÃO MORRE

05/10/1931

Que o amor único de Deus inspire todas as almas para o bem. Antônio de Aquino

Meus irmãos.

Toda a obra que a Humanidade tem realizado através de sua evolução lenta mas progressiva, tem sido o produto do conjunto. Os homens raramente tem agido por si sós. Raramente são forças, quando representados na unidade, e essas mesmas forças que eles representam momentaneamente, quando se destacam do conjunto, tendem a cair, porque, devemos observar, quase todas as grandes conquistas alargaram-se na sua riqueza, na sua construção, por muito mais tempo do que o exímio espaço de uma encarnação humana. E por isso se compreende que aquele homem que quisesse por si só talhar uma obra grandiosa, deixá-la-ia em meio. Se não tivesse toda a cooperação dos seus irmãos na época, tê-la-ia depois de sua desencarnação, porque as ideias ficam e os homens vão, e vêm os trabalhadores sucessivos para a realização das ideias. Muitas vezes o ideal magnífico de um homem que norteou toda a sua encarnação durante anos de sacrifício, de dores, de sofrimento, não pode ser realizado, porque vem a desencarnação fatal, imposta pela sua sina, e o trabalho fica em meio. Se houve um continuador, um discípulo, alguém que o acompanhou de perto, a obra não sofre colapso, não tem interrupção, porque continua sua marcha. Muitas vezes, não com tanto ardor, com mais sabedoria do que antes.

Pode, porém, dar-se o caso de não haver uma pessoa que esteja apta para continuar a obra no momento em que o seu iniciador cai. Nesse caso, o colapso. A ideia, porém, repousa, mas não se extingue.

É um mal acreditarmos que o ideal humano desaparece, que morre o ideal, que toda a força atrativa que chamou um ser, durante uma encarnação, para determinado fim, tenha deixado de existir, quando esse ser morreu.

Não era essa força, não era essa luz, não era esse ideal uma consequência do espírito. Era, pelo contrário, a ação desse espírito consequente do ideal que o norteou.

Assim ele fica obscurecido, oculto, em síncope. Passam muitas vezes sobre ele as gerações utilitárias, com outras aspirações, atraídas por outros rumos, levadas por outros assuntos, mas nem por isso desapareceu a luz, que ficou por um momento oculta. Lá surge dentre a multidão, no meio da turbamulta, alguém que ao passar vislumbrou um clarão tímido que saía da lâmpada e esse alguém prossegue a obra.

Depois que a era contada para os homens atuais começou a desenrolar-se, depois da Tragédia do Calvário e do advento do evangelho cristão com o trabalho magnífico dos apóstolos, com a consagração perfeita dos mártires, houve um colapso. Caiu o ideal, caiu a verdadeira chama e de sob os escombros, uma humanidade, desorientada, novos rumos encontrou, novas diretrizes descobriu, deixando de parte aquilo que deveria constituir a ideia Mater, o fio da doutrina, a orientação precisa.

O ensinamento cristão desapareceu mas não morreu, porque não morre a ideia, porque não morre o ideal, e no meio dessa turba, depois de transcorridos 19 séculos, quando a Humanidade estava imbuída de outras atrações, quando a força, a ação do conjunto se voltaram para outros rumos, quando as realizações da matéria ofuscavam as conquistas e as realizações do espírito, alguém que passava lançou os olhos sobre a luz que vislumbrava debaixo dos escombros, e esse alguém reergueu a lâmpada, e esse alguém reorientou a humanidade tão desviada do seu rumo.

Assim, foi no entrechocar magnífico, portentoso, de conhecimentos, de esperanças do século passado, que esse alguém que se chamou Alan Kardec, se destituiu da turbamulta, saiu do turbilhão em que vinha englobado e plantou novamente a cruz do Espiritismo, do Evangelho.

Aliás, essa é a lei. Também o símbolo ficou e também o exemplo profetizou. Porque a ressurreição do Cristo, depois de encerrado o Seu corpo no sepulcro, exprime perfeitamente a ressurreição de Sua doutrina no século passado, depois de encerrado o Seu nome quase num desvirtuamento completo na época portentosa em que os homens depositaram tudo quanto acreditaram de mais nobre ou tudo quanto acreditaram de mais falso; os que acreditaram que poderiam ver uma orientação segura e os de má-fé. Esse túmulo, porém, partiu-se. E assim como a pedra que levantou, para, da pedra o espírito emergir figuradamente, assim, figuradamente, se partiram esses túmulos portentosos para a doutrina emergir em espírito, longe da letra que mata, longe da escravidão dogmática, longe dos princípios escravizadores: a doutrina em si, pela paz, pela fraternidade, pelo congraçamento de todos os homens.

Foi esse anunciador, esse codificador, esse que presidiu e assistiu a ressurreição da doutrina, foi essa espírito maravilhoso, que cumpriu inteiramente a sua missão na Terra, que completou a reorganização, a reorientação dos homens para a época atual. Sem ele era ainda a escravidão, o tatear na sombra. Ele viu claro; mais que isso, cumpriu, realizou e compreendeu o que viu.

Os homens, muitas vezes, meus irmãos, descobrem em si próprios qualidades talhadas para determinado rumo. Percebem que devem fazer certa obra para a qual estão talhados, mas não basta, porque não fazem a obra ou por inação ou por falta de vontade ou por cederem ao império das circunstâncias. O homem conhece seu destino mas não tem força de realizá-lo; não é um mérito. Não basta conhecer-se a si próprio. É preciso dar-se a si próprio a função competente, e é aí que está e é aí que reside o maior mérito desse espírito que foi o codificador do Cristianismo para a época presente: descobriu o seu rumo, conheceu-se a si próprio e realizou seu destino. Não veio para encontrar a sua estrada ao primeiro contato com a vida. Pelo contrário, na encarnação, tateou vários caminhos, experimentou vários rumos e quando se lhe deparou o fenômeno, quando claras as causas se desenrolaram ao seu espírito, não hesitou um momento em traçar a sua doutrina. Porque a doutrina é dele, o princípio é cristão. E desse traçado, dessa codificação, resultou o renascimento espiritual de Jesus, o Cristo, para a época presente.

Sem esse homem portanto, mais desenfreadas ainda seriam as paixões do vosso século, mais entorpecentes, mais escravizadoras, mais subjugadoras seriam as atrações materiais o peso da matéria densa. Ele rompeu o véu, escancarou as portas da morte sem medo, sem dogma, sem preconceito, como navegador que atirasse suas velas à conquista de um horizonte ignoto, retraçou um continente de luz e plantou verdadeiramente, não um marco de conquista de uma pátria, mas um marco de sentimento, mas uma forma luminosa de espírito que não escraviza e nem cabe em letra, que vai além das páginas, além dos tipos, que não reside no triunfo da história, mas que vai para as consciências, mas que vai para os corações, mas que vai para o sentimento.

Assim, esse que permitiu com que os meus irmãos neste momento pudessem sentir o efeito extraordinário da sua esperança cristã, a esse que teve por maior mérito ser o codificador e o sistematizador da esperança humana, devemos hoje render uma homenagem que não é humana porque não está eivada dos sentimentos da glorificação. Nós não pretendemos endeusar aqueles que nos orientam, mas temos o dever; e é isso que pretendemos; de agradecer a orientação que nos deram. Os meus irmãos do século XX, portanto, os espiritualistas de hoje, devem olhar com reconhecimento, com amor, com carinho essa figura austera mas sincera, mas clara, mas perfeita de orientador que abriu a porta do Cristianismo puro e rompeu os dogmas e trouxe o raciocínio, e sob a escravização do pensamento quebrou as bastilhas para a emancipação do espírito livre, para a conquista do século XX.

A esse espírito, pois, ao nosso irmão Allan Kardec, que tão bem orientou as gerações para esta época, os nossos sinais de reconhecimento, os nossos votos de paz, de amor, de tranquilidade e de progresso.

Que a paz esteja convosco, graças a Deus.


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