Aquela taça (trecho de romance desconhecido)


Periódico: Reencarnação

Porto Alegre, ano 1 n.1, outubro de 1934


 Aquela taça! Jamais procurá-la-ia, porque nunca acreditará bem nela e, no entanto, via-a real e tangível, na sua existência secular, acrescendo o acervo de antiguidades que, com carinho e erudição o negociante historiava.

Selma estava perplexa. Tomou entre os dedos o rico objeto e, negando atenção aos ornamentos com que o cinzel mouresco a tinha embelecido, voltou-a à procura de um indício. Nem este faltava. Lá estavam no fundo do pé maciço, toscamente gravadas no bronze, algumas palavras.

“Inscrição dos Mouros”; explicou o vendedor.

Adquiriu a moça o antigo utensílio e, a par dele, levava grande curiosidade de esclarecimentos a respeito da estranha taça, que invisível não lhe apresentara por ocasião das festivas libações do noivado e núpcias suas.

A repetição do gesto, desvanecera, um tanto, o pasmo produzido na vez primeira, mas não tolhera o movimento de repulsa com que evitara, aos lábios, o contato do misterioso vaso, cujo original vinha de obter num antiquário do Velho Mundo onde a levara recreativa viagem.

Mandou traduzir a inscrição, e ficou sabendo que o que fora nervosamente gravado ali, denunciava: “Morta por mim e para mim”.

Extraordinário assassino, curioso delinquente, que entre a realização e a confissão do crime seu, pusera o espaço dos séculos. A vítima, sob quão volúveis formas, a quantos e variados seres animaria já?! E ela, Selma, a preocupar-se com o velho fato, cuja elucidação só lhe foi feita durante o regresso à pátria.

Por uma noite em que o navio fazia sua rota, embrenhando-se em nevoeiro e trevas, debruçada na amurada, referiu-se a sua companheira de viagem, a quem súbita simpatia ligara-a, o achado e posse do objeto que julgara irreal, de sonho.

A medida que falava, para a outra dona desapareciam as trevas e as águas do Atlântico, iluminadas, de um rosado de madrugada, mudavam-se nas terras de Granada.

Presenciou encarniçadas lutas entre Mouros e Espanhóis, na conquista do solo, que regavam a sangue; viu um ataque valente e uma defesa heroica; viu um rei capitular e um soberano ordenar a expulsão dos vencidos.

Entre os que faziam desesperados aprestos para a retirada brusca, havia linda jovem bronzeada, de olhar cintilante e formas ideais. Conheceu o calor com que o noivo, mancebo espanhol, procurava convencê-la de deixar-se guardar, às ocultas por ele. Viu a negativa enérgica da donzela, cujo sangue mouresco ebulia em protestos de dignidade, de revolta contra os vencedores, de honra à raça ofendida, protestos que brandavam mais alto que os do amor.

Quando ela foi pronta para a partida, deu-lhe o rapaz abruptamente as costas; ao voltar-se apresentava-lhe formosa taça de bronze, onde, a par do líquido dourado, havia o conteúdo de um frasquinho, que no peito guardava.

Bebe, disse-lhe, bebe à eternidade do nosso amor.

Não partiu a bela moura com os compatriotas. Entre contorções e gestos desesperados, que lhe apoucaram a beleza, expirou aos olhos do noivo que, retomando a taça, com aguçado punhal, servido de nervosa mão, gravou-lhe no pé qualquer coisa.

Por fim, ante a vidente só ficara o corpo da graciosa moça, onde os traços se foram mudando, mudando até tornarem-se nos da companheira de viagem.

As águas do Atlântico voltaram novamente e a escuridão tornou a cobri-las, depois de deixar luz sobre o passado de Selma.

 

Albina Rodrigues Bordini


PARA VER O DOCUMENTO ORIGINAL DIGITALIZADO, CLIQUE AQUI


NOTAS DO ARQUIVO ESPÍRITA:

1. A autora, segundo nossas pesquisas, desencarnou em 03/01/1984.

2. A imagem no início da página é apenas ilustrativa. Evidentemente, ela não faz parte do documento original.


O ARQUIVOESPIRITA.ORG é um repositório digital de documentos relativos à história do espiritismo.  

Caso tenha algum documento antigo que tenha relação com o espiritismo, por favor entre em contato conosco pelo e-mail arquivoespirita@gmx.com , ou por nossa página no Facebook.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *